sexta-feira, 17 de julho de 2015

Coisas e coisinhas que todos os pais "deveriam" fazer com os filhos nas férias... Aceita o desafio?


Conversar, conversar, conversar, sem que o tema seja escola, notas, estudo e trabalhos
Converse, ouça, escute, olhe e conte histórias ao seu filho. Pare para o ouvir falar do que ele gosta, digam disparates, riam-se de episódios cómicos, tenham conversas sérias sobre o que vos preocupa, vos une e  sobre o que sentem. O desafio é conversarem com tempo, descontraídos, sem que o tema seja os estudos, as notas e os testes.

Rebolarem na areia que nem croquetes depois de um mergulho no mar
Não só os miúdos, mas sim os pais. Aliás, aposto que os filhos se divertem mais a ver os pais a fazê-lo, sem cuidados nem preocupações, do que serem eles próprios fazerem. A surpresa será maior. Rebole sem parar, descontraído, sem preocupação com o cabelo ou com o biquíni ou calções. A seguir, na pior (ou melhor) das hipóteses, correm e mergulham outra vez.

Experimentem fazer alguma coisa que nunca experimentaram antes
Andar de gaivota, fazer surf, cantar no karaoke, apanhar ondas, andar de kart, pintar o cabelo de azul, verde ou vermelho, fazer uma tatuagem temporária, a regra é experimentar uma coisa nova, juntos. Que seja nova para os filhos mas também para os pais. Basta ser criativo, não precisa ser uma actividade que exija um planeamento excessivo, basta ser uma experiência nova.

Abram os vidros do carro, ponham a música bem alta e cantem (não aconselhável em situações de muito trânsito com filhos adolescentes. Poderão ficar excessivamente envergonhados...)
Cada um escolhe uma música ou procuram na rádio, abram os vidros e... Cantem. Alto, com força e confiança. De preferência ao pôr do sol, numa estrada com pouco movimento.

Vão a um festival de Verão
Vão experimentar um festival de verão com os miúdos. Ver concertos, passear no festival, ouvir música aqui e ali e proporcionar a experiência de um festival. Escolham a gosto, das danças, ao rock, passando pelo reggae, na praia ou no campo. A experiência será inesquecível. Às vezes, até mais para os pais.

Durmam numa tenda
Mesmo podendo não ser adepto de campismo, proporcione a experiência de dormirem numa tenda. Nem que seja no quintal, vosso ou de amigos. Aproveitar o final de dia para cozinhar num “campingaz”, jogar jogos de equipa à luz de uma fogueira, tocar guitarra se houver quem saiba, dormir na tenda e acordar com o calor da manhã.

Elogios a toda a hora e no imediato
Elogiar o ano todo é preciso e indispensável. Mas o período de férias é uma excelente época para elogiar os seus miúdos. E tanto por onde elogiar: porque fez um grande castelo, porque foi corajoso e mergulhou ou até porque vestiu os calções e a t-shirt num instante ou foi muito rápido a tomar o pequeno-almoço. Ou até porque é tão divertido e bom conversador, que merece saber que diverte os pais e que é mesmo bom conversar com ele. Todos os dias haverão motivos para elogios. Basta estar atento.

Deixá-los escolher o que fazer
Pelo menos um dos dias de férias, serão os miúdos a escolher o que querem fazer. A escolha pode ser ficar em casa, a escolha é deles, basta acompanhar essa escolha e mostrar que consegue desfrutar de um programa que não escolheria. Esteja com eles.

Rir muito
Aproveite para rir, para descontrair, para sorrir muito para os seus filhos. O seu sorriso, a sua diversão ficarão para sempre recordados e serão excelentes baterias para o regresso da pressão da escola e do ano lectivo. Parece fácil? Então experimente. Ria-se muito, de preferência com os seus filhos.

São mesmo coisas que deveriam ser obrigatórias ou pelo menos algumas delas, deveriam ser. Parecem não fazer diferença? Parecem menos importantes do que estudarem ou fazerem os trabalhos-de-casa juntos?
Farão mesmo toda a diferença. Experimente e verá. Boas férias!

Rita Castanheira Alves

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Há muito para fazer e descobrir antes de ler, escrever e somar: o pré-escolar



São diversas as opiniões dos profissionais ligados à educação e à psicologia relativamente às competências a desenvolver e a estimular nas crianças antes da entrada no 1º ciclo.
Nos jardins-de-infância seguem-se directrizes e planos normativos, mas há muito espaço para abordagens e perspectivas diferentes. Em casa, há pais que estimulam desde cedo umas competências em detrimento de outras.
Na idade pré-escolar e, entenda-se que a mesma se estende desde que a criança nasce até à entrada no 1º ciclo, há muito por fazer e acima de tudo, descobrir. Dar os primeiros passos no desafio de descobrir quem é, no aprender a ser pessoa, a distinguir-se dos outros, a criar uma individualidade, a sentir-se gostada e a saber gostar.
É tempo de desenvolver as competências que denomino “assuntos de toda a vida e mais além”, ou seja, capacidades e aprendizagens que serão a base para a vida real, no mundo, com os outros e consigo mesmo. Esta fase é essencial para os pais e educadores “trabalharem”, de forma natural, no dia-a-dia, em brincadeiras e nas rotinas com a criança, a tolerância à frustração, a auto-estima, a auto-confiança, a persistência, a solidariedade, a partilha, os limites e o saber errar e sem nunca esquecer, a literacia emocional, dando-lhes a possibilidade de conseguirem identificar em si, nos outros, expressar e regular as emoções, competência transversal para todas as aprendizagens que se seguem, seja na educação formal ou na vida além escola.
Dar os primeiros passos na autonomia e na independência, num jogo gradual, com muita segurança e muitos elogios, para que a criança desde cedo e de forma natural, consiga sentir-se segura, capaz de gerir os desafios que virão em qualquer momento.
Todas estas capacidades são exemplo de capacidades essenciais para a preparação para a vida e para as aprendizagens escolares formais. Uma criança feliz, tranquila, competente pessoal, social e emocionalmente terá maior probabilidade de ter sucesso académico e estar preparada para os desafios mais formais da educação, porque serão também crianças mais motivadas intrinsecamente.
Importante nesta fase, a criação de desafios e situações, adequados às características e fase de desenvolvimento da criança, para desenvolver a capacidade de resolução de problemas. Saber que pode ser difícil, mas que é possível tentar e no meio disto ajudá-la a saber errar, porque na escola irá errar para aprender. Como tal, saber acima de tudo errar, confrontar-se com o erro e com a nova tentativa e saber que isso faz parte da aprendizagem de todos nós, até dos pais. Ajudar a par do erro, a criança a arriscar, a compreender os riscos e a tomar decisões com os riscos que tem, seja numa simples escolha de duas hipóteses de brincadeira.
Importante também nesta fase, e de todas as formas que se queira, o ensino/desenvolvimento da criatividade e da imaginação. Ajudar a criar, a imaginar, seja por histórias, teatros caseiros, brincadeiras de tapete ou músicas. A criatividade é fundamental para a preparação da criança para a fase das aprendizagens escolares. Na fase pré-escolar, a criatividade de todas as formas é um grande recurso e um ingrediente que se pode usar bastante, a par com a curiosidade. Ajudá-la a olhar para o que a rodeia, estimular o questionamento, responder-lhe quando pergunta, perguntar-lhe também, procurar respostas, mesmo que não sejam encontradas.
É tempo de experimentar, dar tempo à criança para experimentar, conseguir dar-lhe espaço para isso, proporcionar-lhe experiências novas e descobrir o que elas significaram e o que restou das mesmas.
É tempo de desenvolver competências artísticas, agilidade motora e proporcionar saúde física também, através da actividade física seja ela formal ou informal, envolvendo, por exemplo, toda a família em caminhadas ou saltos à corda.
Proporcionar à criança o contacto com outras crianças e adultos e jovens. Pessoas diversas, para experimentar diversas relações, desenvolver a socialização, saber estar e partilhar, ouvir e conversar. Ajudá-la a pôr-se no papel dos outros e a respeitá-los e fazer-se respeitar. É tempo ideal para lhe proporcionar brincadeiras diversas, com meninos e com meninas, com bonecas, carrinhos, animais ou puzzles. Jogos de concentração e de manutenção de foco em tarefa, que serão essenciais mais tarde para as aprendizagens formais no 1º ciclo.
Nesta fase, a brincadeira com a criança é o maior motor de desenvolvimento de todas estas capacidades essenciais para o que se segue. A brincadeira é o meio para desenvolver tudo o que aqui considerei importante, tornando as aprendizagens naturais, descontraídas, fáceis, mas com grande eficácia e acima de tudo, tendo na base, a possibilidade de criação de vínculos afectivos com a criança.
Tanta competência importante, tanta possibilidade determinante para a vida numa fase que antecede as aprendizagens formais, a grande tarefa de aprender e experimentar ser Feliz, que saber escrever o nome todo correctamente, decorar letras e contar até 20 sem enganos poderá vir noutro tempo, quando o 1º ciclo chegar. Continuo a achar que há muito para fazer antes disso, e tão importante. Ou se calhar, com o foco e investimento nestas competências pessoais, sociais e emocionais, gradualmente e antes do 1º ciclo, a vontade da criança em saber o seu nome, em aprender a contar e a mostrar sinais de que está preparada para a aprendizagem escolar aparecerá espontaneamente. Vale a pena tentar. 

Rita Castanheira Alves

OPTIMISMO - Ingrediente fundamental para filhos saudáveis


GENEROSIDADE - Ingrediente fundamental para filhos saudáveis


segunda-feira, 15 de junho de 2015

Apresentação do Livro "A Psicóloga dos Miúdos" na Feira do Livro de Lisboa e a conversa sobre o que é isto de educar, ser pai, ajudar a crescer os mais novos...

O céu nublado, as nuvens carregadas e a chuva que teimava em não parar. Este cenário dizia-nos que seria um dia tão bom para se ficar em casa, no sofá a ler, a ver filmes e a jogar com a família e amigos. 
Mas era o último dia da Feira do Livro de Lisboa e às 17 horas a apresentação do meu livro "A Psicóloga dos Miúdos" e uma conversa com os participantes sobre isto de educar e ajudar a crescer os mais novos. 
"Cancelamos? Não cancelamos?" "Não há cadeiras. Estão molhadas." "Os eventos estão a ser todos cancelados, a feira está quase sem ninguém."

Mas há um compromisso, uma vontade de conversar e por isso não vou cancelar, valerá sempre a pena.

E às 17 horas, a chuva resolveu descansar e dar-nos um céu mais aberto. As cadeiras já secas, o palco molhado mas preparado e a pouco e pouco, daqui e dali chegaram amigos, pais, clientes, ex-clientes, professores, família e tantos outros que íam passando, sentavam-se, ficavam em pé, ouviam o que por ali se dizia a propósito do meu novo livro "A Psicóloga dos Miúdos". 

Foi uma conversa curta, mas animada, com sorrisos cúmplices, partilhas importantes, dúvidas de pais coragem e entusiasmados. 

O meu agradecimento a todos e a cada um dos que lá esteve, mesmo quando o sofá seria certamente mais apetitoso. 
O meu obrigada pelos que estiveram novamente, pelos que sei, fizeram tudo para ir, pelos que surpreenderam e dos quais tinham saudade. 
O meu obrigada a todos os que não conheciam mas ficaram para conhecer. 


Afinal há dias de chuva bem felizes!

Rita Castanheira Alves

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Porque a vida passa. Há que ser mesmo criança quando se é criança


Hoje sonhei com os meus avós. Na casa onde passava os Verões com os dois, no meio de couves, flores, terra e uma piscina de cimento que arranhava os pés, para nos lembrar que foi feita com muito carinho e trabalho pelo meu avô, no seu silêncio.
Sonhei que lá estava mas era crescida. Já não era criança. A minha avó costurava e o meu avô andava por lá e eu estava a tirar ou a estacionar o carro, não sei bem.
Mas era agora, crescida, mas eles como antigamente, quando eu era criança.
Acordei e fiquei triste subitamente. “Tempos que não voltam”, pensei.

Mas sem tirar a cabeça da almofada, lembrei-me que era tempo de assinalar o dia da criança na página do projecto e de lembrar a importância deste dia. Um dia que, sim, deve ser assinalado, deve existir e deve ser marcado. Para nos lembrar do que é ser criança, do que é direito de criança, de que é preciso parar e olhar para os mais pequenos de altura e não esquecer que são também pequenos a crescer, com muita vontade de brincar, com muita necessidade de mimo e fantasia e com um tempo e rtimo próprios. Que desejam sorrir e dão abraços tão bons e tão cheios.
 
Acordada lembrei-me de mim pequena. Lembrei-me da marquise que existia na minha casa, que existia, aliás nos anos 80/90 em grande parte das casas dos subúrbios. Uma caixa de alumínio, que geralmente não tinha grande utilidade.
 A caixa de alumínio da minha casa era local de brincadeira, entre almofadões grandes para relaxar, canetas, bonecas e outras tantas coisas que não eram necessariamente brinquedos à primeira vista, mas eram até mais do que muitos dos brinquedos da loja. Na marquise brincava horas sem parar, geralmente até o sol se pôr, no verão mais, porque o sol ía dormir mais tarde e porque estava mais quentinho. Convidava os meus pais para virem beber chá ou ao restaurante que lá montava com os bancos da cozinha e os panos turcos da loiça. Lá ficava a trocar de roupa, a escrever com giz no chão ou a inventar histórias impossíveis, deitada nos almofadões, que na altura pareciam muito maiores do que realmente seriam, provavelmente.   
Quando vinham amigos, também se brincava na marquise, mas não era a mesma coisa. Aquela divisão era uma espécie de casinha só minha, onde tantas vezes passava a tarde do fim-de-semana ou brincava depois de vir da escola.
E hoje, lembrei-me deste sítio fantástico, mágico, que me acalmava, divertia, me aconchegava, que me ajudou a criar, imaginar e a ser feliz. E hoje, depois desta corrida pela memória da minha infância, parei num momento: naquela mesma marquise, o sol lá batia no final do Verão, já fraquinho mas aconchegante, a minha mãe a ir embora porque já não lhe apetecia brincar mais e eu a pensar: “É impossível deixar de gostar de brincar, eu nunca vou deixar de gostar de brincar, tenho a certeza. Às cozinhas, aos puzzles, aos restaurantes, aos medicos, às secretárias ou às lojas.
Hoje, lembrei-me como se fosse ontem que lá estivesse na marquise, lembrei-me exactamente como me sentia quando brincava, como era sentir-me satisfeita, motivada, envolvida, descontraída e feliz por poder brincar. E como ainda sei exactamente que sensação é essa e como ainda a tenho nos novos interesses  e descobertas que vou tendo e pelos quais me vou apaixonando.
Abri os olhos, sorri, aceitei a saudade e fui desejar um feliz dia da criança ao mundo.

Acima de tudo assinalar o dia, porque foi mesmo importante a oportunidade de ter sido criança. Acima de tudo assinalar o dia, porque é determinante para o crescimento ter a oportunidade de ser criança. Acima de tudo assinalar o dia porque a vida passa.

Rita Castanheira Alves

Para todas as crianças, pequenas ou crescidas!