segunda-feira, 6 de julho de 2015

Há muito para fazer e descobrir antes de ler, escrever e somar: o pré-escolar



São diversas as opiniões dos profissionais ligados à educação e à psicologia relativamente às competências a desenvolver e a estimular nas crianças antes da entrada no 1º ciclo.
Nos jardins-de-infância seguem-se directrizes e planos normativos, mas há muito espaço para abordagens e perspectivas diferentes. Em casa, há pais que estimulam desde cedo umas competências em detrimento de outras.
Na idade pré-escolar e, entenda-se que a mesma se estende desde que a criança nasce até à entrada no 1º ciclo, há muito por fazer e acima de tudo, descobrir. Dar os primeiros passos no desafio de descobrir quem é, no aprender a ser pessoa, a distinguir-se dos outros, a criar uma individualidade, a sentir-se gostada e a saber gostar.
É tempo de desenvolver as competências que denomino “assuntos de toda a vida e mais além”, ou seja, capacidades e aprendizagens que serão a base para a vida real, no mundo, com os outros e consigo mesmo. Esta fase é essencial para os pais e educadores “trabalharem”, de forma natural, no dia-a-dia, em brincadeiras e nas rotinas com a criança, a tolerância à frustração, a auto-estima, a auto-confiança, a persistência, a solidariedade, a partilha, os limites e o saber errar e sem nunca esquecer, a literacia emocional, dando-lhes a possibilidade de conseguirem identificar em si, nos outros, expressar e regular as emoções, competência transversal para todas as aprendizagens que se seguem, seja na educação formal ou na vida além escola.
Dar os primeiros passos na autonomia e na independência, num jogo gradual, com muita segurança e muitos elogios, para que a criança desde cedo e de forma natural, consiga sentir-se segura, capaz de gerir os desafios que virão em qualquer momento.
Todas estas capacidades são exemplo de capacidades essenciais para a preparação para a vida e para as aprendizagens escolares formais. Uma criança feliz, tranquila, competente pessoal, social e emocionalmente terá maior probabilidade de ter sucesso académico e estar preparada para os desafios mais formais da educação, porque serão também crianças mais motivadas intrinsecamente.
Importante nesta fase, a criação de desafios e situações, adequados às características e fase de desenvolvimento da criança, para desenvolver a capacidade de resolução de problemas. Saber que pode ser difícil, mas que é possível tentar e no meio disto ajudá-la a saber errar, porque na escola irá errar para aprender. Como tal, saber acima de tudo errar, confrontar-se com o erro e com a nova tentativa e saber que isso faz parte da aprendizagem de todos nós, até dos pais. Ajudar a par do erro, a criança a arriscar, a compreender os riscos e a tomar decisões com os riscos que tem, seja numa simples escolha de duas hipóteses de brincadeira.
Importante também nesta fase, e de todas as formas que se queira, o ensino/desenvolvimento da criatividade e da imaginação. Ajudar a criar, a imaginar, seja por histórias, teatros caseiros, brincadeiras de tapete ou músicas. A criatividade é fundamental para a preparação da criança para a fase das aprendizagens escolares. Na fase pré-escolar, a criatividade de todas as formas é um grande recurso e um ingrediente que se pode usar bastante, a par com a curiosidade. Ajudá-la a olhar para o que a rodeia, estimular o questionamento, responder-lhe quando pergunta, perguntar-lhe também, procurar respostas, mesmo que não sejam encontradas.
É tempo de experimentar, dar tempo à criança para experimentar, conseguir dar-lhe espaço para isso, proporcionar-lhe experiências novas e descobrir o que elas significaram e o que restou das mesmas.
É tempo de desenvolver competências artísticas, agilidade motora e proporcionar saúde física também, através da actividade física seja ela formal ou informal, envolvendo, por exemplo, toda a família em caminhadas ou saltos à corda.
Proporcionar à criança o contacto com outras crianças e adultos e jovens. Pessoas diversas, para experimentar diversas relações, desenvolver a socialização, saber estar e partilhar, ouvir e conversar. Ajudá-la a pôr-se no papel dos outros e a respeitá-los e fazer-se respeitar. É tempo ideal para lhe proporcionar brincadeiras diversas, com meninos e com meninas, com bonecas, carrinhos, animais ou puzzles. Jogos de concentração e de manutenção de foco em tarefa, que serão essenciais mais tarde para as aprendizagens formais no 1º ciclo.
Nesta fase, a brincadeira com a criança é o maior motor de desenvolvimento de todas estas capacidades essenciais para o que se segue. A brincadeira é o meio para desenvolver tudo o que aqui considerei importante, tornando as aprendizagens naturais, descontraídas, fáceis, mas com grande eficácia e acima de tudo, tendo na base, a possibilidade de criação de vínculos afectivos com a criança.
Tanta competência importante, tanta possibilidade determinante para a vida numa fase que antecede as aprendizagens formais, a grande tarefa de aprender e experimentar ser Feliz, que saber escrever o nome todo correctamente, decorar letras e contar até 20 sem enganos poderá vir noutro tempo, quando o 1º ciclo chegar. Continuo a achar que há muito para fazer antes disso, e tão importante. Ou se calhar, com o foco e investimento nestas competências pessoais, sociais e emocionais, gradualmente e antes do 1º ciclo, a vontade da criança em saber o seu nome, em aprender a contar e a mostrar sinais de que está preparada para a aprendizagem escolar aparecerá espontaneamente. Vale a pena tentar. 

Rita Castanheira Alves

OPTIMISMO - Ingrediente fundamental para filhos saudáveis


GENEROSIDADE - Ingrediente fundamental para filhos saudáveis


segunda-feira, 15 de junho de 2015

Apresentação do Livro "A Psicóloga dos Miúdos" na Feira do Livro de Lisboa e a conversa sobre o que é isto de educar, ser pai, ajudar a crescer os mais novos...

O céu nublado, as nuvens carregadas e a chuva que teimava em não parar. Este cenário dizia-nos que seria um dia tão bom para se ficar em casa, no sofá a ler, a ver filmes e a jogar com a família e amigos. 
Mas era o último dia da Feira do Livro de Lisboa e às 17 horas a apresentação do meu livro "A Psicóloga dos Miúdos" e uma conversa com os participantes sobre isto de educar e ajudar a crescer os mais novos. 
"Cancelamos? Não cancelamos?" "Não há cadeiras. Estão molhadas." "Os eventos estão a ser todos cancelados, a feira está quase sem ninguém."

Mas há um compromisso, uma vontade de conversar e por isso não vou cancelar, valerá sempre a pena.

E às 17 horas, a chuva resolveu descansar e dar-nos um céu mais aberto. As cadeiras já secas, o palco molhado mas preparado e a pouco e pouco, daqui e dali chegaram amigos, pais, clientes, ex-clientes, professores, família e tantos outros que íam passando, sentavam-se, ficavam em pé, ouviam o que por ali se dizia a propósito do meu novo livro "A Psicóloga dos Miúdos". 

Foi uma conversa curta, mas animada, com sorrisos cúmplices, partilhas importantes, dúvidas de pais coragem e entusiasmados. 

O meu agradecimento a todos e a cada um dos que lá esteve, mesmo quando o sofá seria certamente mais apetitoso. 
O meu obrigada pelos que estiveram novamente, pelos que sei, fizeram tudo para ir, pelos que surpreenderam e dos quais tinham saudade. 
O meu obrigada a todos os que não conheciam mas ficaram para conhecer. 


Afinal há dias de chuva bem felizes!

Rita Castanheira Alves

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Porque a vida passa. Há que ser mesmo criança quando se é criança


Hoje sonhei com os meus avós. Na casa onde passava os Verões com os dois, no meio de couves, flores, terra e uma piscina de cimento que arranhava os pés, para nos lembrar que foi feita com muito carinho e trabalho pelo meu avô, no seu silêncio.
Sonhei que lá estava mas era crescida. Já não era criança. A minha avó costurava e o meu avô andava por lá e eu estava a tirar ou a estacionar o carro, não sei bem.
Mas era agora, crescida, mas eles como antigamente, quando eu era criança.
Acordei e fiquei triste subitamente. “Tempos que não voltam”, pensei.

Mas sem tirar a cabeça da almofada, lembrei-me que era tempo de assinalar o dia da criança na página do projecto e de lembrar a importância deste dia. Um dia que, sim, deve ser assinalado, deve existir e deve ser marcado. Para nos lembrar do que é ser criança, do que é direito de criança, de que é preciso parar e olhar para os mais pequenos de altura e não esquecer que são também pequenos a crescer, com muita vontade de brincar, com muita necessidade de mimo e fantasia e com um tempo e rtimo próprios. Que desejam sorrir e dão abraços tão bons e tão cheios.
 
Acordada lembrei-me de mim pequena. Lembrei-me da marquise que existia na minha casa, que existia, aliás nos anos 80/90 em grande parte das casas dos subúrbios. Uma caixa de alumínio, que geralmente não tinha grande utilidade.
 A caixa de alumínio da minha casa era local de brincadeira, entre almofadões grandes para relaxar, canetas, bonecas e outras tantas coisas que não eram necessariamente brinquedos à primeira vista, mas eram até mais do que muitos dos brinquedos da loja. Na marquise brincava horas sem parar, geralmente até o sol se pôr, no verão mais, porque o sol ía dormir mais tarde e porque estava mais quentinho. Convidava os meus pais para virem beber chá ou ao restaurante que lá montava com os bancos da cozinha e os panos turcos da loiça. Lá ficava a trocar de roupa, a escrever com giz no chão ou a inventar histórias impossíveis, deitada nos almofadões, que na altura pareciam muito maiores do que realmente seriam, provavelmente.   
Quando vinham amigos, também se brincava na marquise, mas não era a mesma coisa. Aquela divisão era uma espécie de casinha só minha, onde tantas vezes passava a tarde do fim-de-semana ou brincava depois de vir da escola.
E hoje, lembrei-me deste sítio fantástico, mágico, que me acalmava, divertia, me aconchegava, que me ajudou a criar, imaginar e a ser feliz. E hoje, depois desta corrida pela memória da minha infância, parei num momento: naquela mesma marquise, o sol lá batia no final do Verão, já fraquinho mas aconchegante, a minha mãe a ir embora porque já não lhe apetecia brincar mais e eu a pensar: “É impossível deixar de gostar de brincar, eu nunca vou deixar de gostar de brincar, tenho a certeza. Às cozinhas, aos puzzles, aos restaurantes, aos medicos, às secretárias ou às lojas.
Hoje, lembrei-me como se fosse ontem que lá estivesse na marquise, lembrei-me exactamente como me sentia quando brincava, como era sentir-me satisfeita, motivada, envolvida, descontraída e feliz por poder brincar. E como ainda sei exactamente que sensação é essa e como ainda a tenho nos novos interesses  e descobertas que vou tendo e pelos quais me vou apaixonando.
Abri os olhos, sorri, aceitei a saudade e fui desejar um feliz dia da criança ao mundo.

Acima de tudo assinalar o dia, porque foi mesmo importante a oportunidade de ter sido criança. Acima de tudo assinalar o dia, porque é determinante para o crescimento ter a oportunidade de ser criança. Acima de tudo assinalar o dia porque a vida passa.

Rita Castanheira Alves

Para todas as crianças, pequenas ou crescidas!


domingo, 24 de maio de 2015

ALERTA AOS PAIS com filhos em idade escolar

Pais,

é tempo de exames, testes, final de ano e stress se passa ou não passa, se tem muitos cincos na pauta ou só um, se vai ter negativas, se quer saber daquilo ou não quer, é certo. E os pais preocupam-se, naturalmente.

Mas...

Alerto para o facto de andarem por aí muitos miúdos, daqueles mesmo geniais, bons e razoáveis, que andam a chorar às escondidas, debaixo dos lençois quando vão dormir, que acham que são uma porcaria e estão em ansiedade excessiva com estes últimos testes ou exames, que sentem que nunca vão corresponder ao que (muitas vezes os pais) esperam deles.

E não contam aos pais.

E porque a auto-estima é essencial para a saúde mental e felicidade e porque nenhum miúdo devia pensar que não vale nada, só porque não consegue chegar à nota que deveria, mesmo quando passa horas à frente dos livros... Agora mesmo, e mesmo que o seu filho esteja no meio dos livros, páre tudo e vá ter com ele. Dê-lhe um abraço e diga-lhe que vai correr tudo bem e que percebe que não é sempre fácil.

Acredite que será a sua melhor "nota" e o melhor estudo para o seu filho.

Rita Castanheira Alves

domingo, 17 de maio de 2015

A importância de parar e relaxar. Mesmo quando se é miúdo...E sim, quando há exames.

Este fim-de-semana, depois da manhã de consultas de Sábado, resolvi parar e permiti-me relaxar.

Desde o início do ano que os projectos profissionais têm ocupado um papel de destaque, que tem sido muito desafiante, motivo de muita felicidade, mas também de um inevitável cansaço e desgaste, que precisa ser gerido. Especialmente quando se trabalha com pessoas, especialmente miúdos, a crescer, com problemáticas e vidas difíceis, é preciso saber distinguir e identificar as nossas próprias dores e fazer o que é possível para que fiquem foram do consultório. E isso tornou-se regra de ouro na minha prática. Saber quando parar, saber que é importante cuidar de mim e da minha saúde mental, para poder trabalhar da melhor forma.

Permite-me ontem e hoje parar e relaxar. Deitar-me na areia, respirar fundo, mergulhar e sentir a cabeça e o corpo a ficarem mais leves, desimpedidos, tranquilos e com energia.

E esta tarde, no meio da minha permissão para descanso, observava o descanso dos outros, especialmente dos mais novos. Os que, até quase ao anoitecer, lá estavam com os pais, com os irmãos, primos ou amigos. A passear, a saltar, a jogar ou a brincar com a areia. Dos que surfam, aos que simplesmente preferem deitar-se e ouvir música. Passando pelos que fantasiam sobre uma cidade gigante de areia, até aos que correm sem parar.

Porque uma pausa das obrigações, pressões e avaliações é preciso. Respirar, desimpedir a cabeça e relaxar o corpo. Brincar, jogar e estar com os outros. Mesmo, e especialmente, quando se avizinha uma semana dos tão temidos e stressantes "exames". Nem que seja só um bocadinho.

Talvez essa pausa no estudo, contribua para alguns pontos nesse exame do seu filho, mas acima de tudo na saúde mental dele. Duvida?

Rita Castanheira Alves

segunda-feira, 11 de maio de 2015

I Simpósio de Educação & Saúde Mental - Serpa 2015 - Que privilégio

Sexta e Sábado fugi de Lisboa e fui até Serpa participar no 1º Simpósio de Educação e Saúde Mental, organizado pela Associação de Pais Abade Correia da Serra.

No final do dia de Sábado regressei a Lisboa, cansada, mas muito feliz e porque queria mesmo aproveitar o que trazia comigo desses dias, parei, sozinha, a meio do caminho. Porque às vezes, esquecemo-nos de parar, respirar, ouvir os outros e olhar à volta.

Em Serpa houve tempo para tudo isso e mais ainda. Foram muitas horas de partilha, troca de experiências, gente efervescente e de boas ideias, profissionais que continuam a acreditar e a sonhar e muita generosidade. Tudo junto... "Que privilégio eu tive" -  pensei.

Obrigada a todos os que contribuíram para esse privilégio. Foi mesmo muito bom.


Rita Castanheira Alves


sábado, 2 de maio de 2015

A força de mãe, da minha mãe.


 À minha Mãe.
 
Quando tinha 18 anos, passei por uma fase difícil. Talvez apenas por ser adolescente e por estar a construir a minha identidade. Todavia, foi má. Tão má que, durante alguns anos, não queria sequer falar sobre esses quase 12 meses, com medo de lá ir parar outra vez e não conseguir sair. Já estudava psicologia, muito no início, sem gostar e sem ter a mínima ideia daquilo que iria fazer, longe de saber que faria o que faço hoje e que estaria onde estou.
Por variadas razões, deprimia-me muito, sentia-me muito triste, sem vontade de nada e, fisicamente, o meu corpo resolveu gritar. Emagreci cerca de dez quilos, fiquei doente e nada me fazia sentir bem. No dia em que celebrei o meu 19º aniversário, fiz uma grande festa à noite, para me animar, pensava eu. Convidei muitos amigos e, mesmo sem força, fui jantar. Não correu bem; não estava bem e, depois de estar exausta, cheia de vontade de chorar e sem conseguir comer, resolvi deixar a festa e fui para casa. Cheguei tarde, lembro-me. A minha mãe acordou e foi ter comigo à cozinha. Chorei, novamente. Nesse ano chorava demasiadas vezes, à frente de quem quer que fosse; era muito constrangedor. Chorei, a minha mãe deu-me a mão, ouviu-me e, nessa noite, pela primeira vez, acho que consegui explicar o que realmente se passava comigo… à minha mãe. Ela ouviu-me, chorou comigo de vez em quando, fez-me festinhas e um chá. Foi-me dando sinais que me permitiram continuar, pelo seu olhar, pela compreensão, pela paciência... Não sei.
No final, disse-me: «Faz aquilo de que gostas e rodeia-te de quem te faz realmente bem.» Não sei se foi o que me disse, não sei se foi o apoio que me deu, não sei se tinha chegado o momento de, finalmente, melhorar. Sei que, depois das palavras da minha mãe, me senti tranquila. Como já não me sentia há muito tempo. Finalmente, estava descansada e menos angustiada.
No dia seguinte, as boas sensações ainda permaneciam dentro de mim e, devagarinho, comecei a deixar sair a tristeza, a fazer aquilo de que gostava e a estar com quem realmente me fazia bem — passei a ser como desejava. Acho que a minha mãe nunca percebeu como me «curou». Contudo, «curou» mesmo e eu nunca me esquecerei dessa força incrível. A força de mãe, da minha mãe.

Rita Castanheira Alves

A todas as mães. Mimem-se, vivam, não se esqueçam de quem são. Nunca.


Um dia, eles crescem e devem ir embora, mas nós ficamos só connosco... novamente.

Eu sou a Sofia. Fui mãe aos 33 anos e há muito que desejava sê-lo. Foi a melhor experiência da minha vida. Tão boa, que quis aproveitá-la ao máximo, talvez um máximo exagerado, penso hoje.
A Lara, a minha filha, nasceu e precisava muito de mim. Era uma criança difícil. Hoje, vejo que era como todas as outras. As birras normais, cólicas, difícil adaptação ao sono, nada de especial, sempre foi saudável. Para mim, novata na experiência da maternidade, ela precisava mais do que os outros e eu queria dar-lhe tudo o que ela precisava. Na altura, tinha um trabalho de que gostava, mas, com o nascimento da Lara, fiquei em casa e parece que o trabalho já não interessava. Quando começou a falar, a Lara dizia-me para eu não ir trabalhar, que era mais divertido ficarmos juntas e, de facto, notava que ela precisava de mim, do meu tempo, da minha dedicação. O tempo que sobrava ao final do dia não chegava, nem os fins-de-semana, mesmo dedicando-me exclusivamente à Lara. O Rafael, o pai da Lara, dizia-me que achava um exagero e que também queria ter um tempo comigo. Eu compreendia, mas dizia-lhe que depois teríamos tempo, quando a Lara crescesse mais um bocadinho.
Resolvemos, então, que a Lara seria mais equilibrada e completa se eu deixasse o trabalho e a acompanhasse todo o dia, nas suas tarefas e actividades. Ela ficava tão feliz e eu também. Não precisávamos de mais ninguém e, na verdade, ela era uma menina muito especial, sabia exactamente o que queria, sabia escolher e não gostava de toda a gente. Eu também não a obrigava a gostar ou a interagir com quem não gostava e, a bem dizer, nessa altura deixei de ter tempo para alguns amigos. Ser mãe era intenso, exigente e uma fase que passaria em breve. Aproveitava ao máximo para estar com a Lara e dava-me muito gozo falar sobre ela ao telefone com alguns familiares e amigos, contar-lhes as evoluções da minha filha, as conversas engraçadas que temos e como é uma menina inteligente e feliz. Parece que nem me apetecia ouvi-los falar de outras coisas.
O crescimento da Lara foi muito acompanhado por mim. Como tinha sempre tempo, raramente recorria aos avós para ficarem com ela ou irem buscá-la. Evitava também que ficasse a pernoitar com eles. Lembro-me de o fazermos uma vez, porque o Rafael insistiu muito, e os dois só falámos dela, telefonámos várias vezes à noite e no dia seguinte fomos buscá-la mais cedo do que o previsto.
Hoje, pensando bem, acho que fui só eu que falei muito sobre a Lara e que telefonei nessa noite. O Rafael queria estar comigo. Talvez sentisse falta do tempo em que éramos só os dois. Mas ele tinha de compreender: o amor de mãe é diferente de tudo.
Ele tinha uma boa relação com a Lara, mas havia momentos em que lhe dizia para brincar sozinha e pedia que nos deixasse ver um filme. Aquilo irritava-me. Podíamos ver um filme os três. O Rafael dizia que estava farto de ver desenhos animados. Não percebia que era importante para a Lara ser incluída e que rapidamente ela cresceria.
A Lara foi crescendo, foi sempre uma aluna exemplar, sempre lhe dei muito apoio, atenção e isso fez com que crescesse aplicada, organizada e estável. Quando estava na escola, dedicava-me a preparar-lhe uma surpresa ou a organizar-lhe exercícios para trabalharmos. Aos fins-de-semana fazíamos actividades em família, dedicadas à Lara, que a estimulavam muito.
A Lara tinha poucas influências, mas isso parecia-me bem na altura. Não havia demasiadas influências que não podia controlar e também não me tiravam tempo com ela.
A Lara cresceu, como eu previa, demasiado rápido, tornou-se adolescente e começou a querer sair com os amigos.  Depois das aulas, queria vir sozinha para casa ou ficar em casa de uma amiga. Fazia-me tanta falta. Sempre que me pedia, eu tinha tanta vontade de lhe dizer para vir para casa, para irmos as duas às compras ou ao cinema, mas controlava-me. Ficava triste e a sentir-me sozinha, à espera que ela chegasse.
A relação com o Rafael estava diferente… Acho que é normal, fomos pais, mudou muita coisa e não poderíamos continuar iguais. Ele habituou-se a estar mais sozinho ou a estarmos sempre os três e, agora, que a Lara não estava, era estranho estarmos só os dois.
Eu deixei para trás o meu trabalho, os objectivos profissionais que tinha antes de ser mãe e não construi uma carreira; nunca cheguei a concluir o curso que tinha iniciado meses antes de engravidar. Deixei-me ir pela carreira de mãe a tempo inteiro. Na altura, soube-me muito bem e a Lara precisou, foi importante para ela.
Os meus olhos só se dirigiam para a Lara. Ela precisava de muita atenção e dedicação e dava-me um gozo tremendo olhar para a minha filha e vê-la crescer. Deixei de olhar para o espelho, para mim, para o meu cabelo, para as roupas e acessórios que antes me costumavam envaidecer e fazer-me sentir mais especial em certas ocasiões. Quando me tornei mãe, era como se a Lara fosse aquilo que mais me envaidecia e me fazia brilhar, uma filha tão especial. Engordei, deixei o ginásio e de fazer as corridas matinais habituais. Levava a Lara ao ballet e à natação, pelo que não sobrava tempo para o meu desporto.
Quando a Lara saía com os amigos, eu lembrava-me dos meus antigos amigos. Aqueles que, depois da maternidade, deixei de ver com regularidade e que antes eram amigos de copos e risadas. A Lara era pequena, não podia deitar-se tarde e, na altura, muitos deles ainda não eram pais, tinham hábitos muito diferentes e os miúdos absorvem tudo, pensava eu.
Hoje, a Lara é adulta, alugou uma casa e vive com amigos. Tem um namorado, trabalha como enfermeira, é feliz, saudável e alegre.
Hoje acordei e pensei: «E eu? Quem sou eu?»
Continuo a ser mãe, mas já não sou mãe a tempo inteiro. Isso deu espaço para pensar no resto que foi indo com o tempo em que era mãe a tempo inteiro. Deu espaço para mostrar o que fui adiando ou eliminando, pelo encanto e dedicação exclusiva ao desafio da maternidade. Hoje, acho que me esqueci de mim. Hoje, a Lara diz-me para eu me arranjar, pensar mais em mim e investir em coisas que me interessem. Não sei como se faz, tenho receio, acho que já é tarde, já não me conheço, nem conheço quase ninguém, nem mesmo o Rafael. 
Hoje, penso que, se voltasse atrás, agarrava da mesma forma especial o desafio de ser mãe, com orgulho, dedicação e empenho, mas não largava tudo o resto.
Não deixava de ser pessoa. 

Rita Castanheira Alves

quinta-feira, 30 de abril de 2015

No dia da mãe... Um presente para si, mãe.

E já sabe o que vai oferecer à sua mãe no dia da Mãe? E a si própria, Mãe?
Fica a sugestão da Fnac e minha. :)

Tenho a certeza que merece!


domingo, 26 de abril de 2015

E finalmente... O lançamento! A preparação.

Ontem, 25 de Abril, por si só uma data incrível e que nunca passa ao lado, foi um dia muito especial. Finalmente o lançamento do meu livro A Psicóloga dos Miúdos!

Vou contar-vos tudo e partilhar as fotografias deste momento tão bom dentro de pouco tempo.

Sentia-me genuinamente feliz e completa, mas a querida Maria João dos Maria João Cabeleireiros conseguiu "transparecer" na minha imagem essa felicidade, entusiasmo e brilho. Além da fantástica massagem enquanto me tratou do cabelo, que me ajudou a relaxar e a mandar embora o "nervoso miudinho" e que foi essencial.

Obrigada Maria João, valeu mesmo a pena. :)



terça-feira, 14 de abril de 2015

O livro A Psicóloga dos Miúdos - Guia prático para todos os Pais

E depois de muitas pistas na página do Facebook da Psicóloga dos Miúdos, chegou o dia de partilhar a grande novidade.

O livro 
A Psicóloga dos Miúdos 
Guia Prático para todos os Pais

...Um manual para pais, um manual para a vida de quem é pai ou mãe. Trata-se de uma obra que se pretende que tenha sempre à mão, para poder consultar, reflectir, desabafar, compreender e resolver.
Como uma espécie de psicóloga dos miúdos numa versão portátil: que não age pelos pais, mas que os ajuda, ampara, compreende e orienta a todos os momentos do dia. Porque, afinal, os miúdos não vêm com manual de instruções e porque, se viessem, também não tinha piada nenhuma... Bem, de vez em quando até teria alguma piada...


 É com muito orgulho que divulgo este novo projecto, um desafio exigente, de grandes aprendizagens, trabalho e muita criatividade. A pensar em todos os pais, mesmo todos. 

O lançamento será Sábado, dia 25 de Abril de 2015 às 18h30 na Fnac do Centro Comercial Vasco da Gama, em Lisboa. 

Gostava muito de contar convosco! 
Espero ver-vos por lá!
Tragam um amigo também. 

Rita Castanheira Alves

O que ficou do 1º filme do Mês da Prevenção dos maus-tratos na infância 2015

Na passada Quinta-feira, dia 9 de Abril, a convite da equipa organizadora da Campanha de Prevenção dos Maus-Tratos na Infância, participei no habitual ciclo de cinema, que é sempre muito mais do que um filme, escolhendo o filme dessa noite e dinamizando a conversa sobre o mesmo.
A minha escolha foi para Meu Pé de Laranja Lima. O auditório não estava cheio, com muita pena minha, continua a ser um evento de extrema importância, muito interessante, mas com pouca adesão. No entanto, poucos mas muito bons. Mesmo!

Depois do filme e de uma pausa para limpar lágrimas, respirar fundo e regressar ao mundo real, iniciámos a nossa conversa com o público. Com a excelente e rica participação da Dra Maria João Vargas Moniz e da Dra. Maria Perquilhas, conversámos sobre prevenção, sobre pais, sobre crianças, escolas e medidas importantes.
 Foi muito rico e interessante.

Mas o que mais ficou foi  privilégio de termos presentes alguns miúdos. Duas delas, a que chamámos, carinhosamente, as "sobreviventes", porque a noite já ía longa e no dia seguinte havia aulas, deram um contributo precioso.
O que ficou de mais bonito, importante e espantoso foi o dito por uma das "sobreviventes", a R. que não teria mais de 11/12 anos: " Todas as crianças deviam ter direito a um sorriso."

E assim, um conjunto de adultos, pais, técnicos, educadores, professores, psicólogos, juristas, pararam e uma salva de palmas foi o sinal de que a R. "sobrevivente" tão nova, já sabe tão bem prevenir o mau-trato.

Obrigada por todas as aprendizagens.

A campanha continua o resto do mês e o ciclo continua. Basta consultar o programa que aqui partilho.

Rita Castanheira Alves

domingo, 5 de abril de 2015

Uma Páscoa divertida e cheia de emoções!

Uma tarde de Domingo de Páscoa divertido e especial, com uma caça aos ovos... Diferente. Uma caça ao ovo emocional.
Os ovos emocionais do consultório da Psicóloga dos Miúdos

Material:
ovos de chocolate
lápis
papel

Como fazer?

A seguir ao almoço, envolvam os ovos com papel branco ou outro qualquer à escolha. Desenhem caras com diferentes emoções. 
Um dos elementos da família esconde os ovos na sala/quarto ou pela casa. Os restantes elementos deverão procurar os ovos. Cada vez que encontra um, deve nomear a emoção e uma situação em que já sentiu a emoção encontrada.
Nota: Se não conseguirem pintar as caras, poderão imprimi-las, encontrando-as na internet. Poderão criar alternativas na caça ao ovo emocional (ex: encontrar e ter de mimar a expressão para os restantes elementos adivinharem; dizer quando já sentiu; nomear sensações corporais associadas à emoção.) 



Acima de tudo, e o mais importante, é que os miúdos vão adorar a tarde de Páscoa!
Gargalhadas, entusiasmo e curiosidade são os comportamentos esperados e que não vão faltar.
Depois, foi uma tarde preciosa de desenvolvimento emocional, ingrediente chave para o crescimento saudável dos seus filhos!

No consultório da Psicóloga dos Miúdos, a caça ao ovo é sempre um sucesso e com resultados excelentes. E sem chocolate! ;)

Páscoa feliz!

Rita Castanheira Alves

quinta-feira, 19 de março de 2015

A todos os pais que ajudam a "saltar"!


Ao meu pai. 

Esta é a história de um salto para o mar. Um salto de um pontão alto. Uma história de um salto para a autonomia.
O rapaz chegou, num dia de sol, a Cascais. Ao pontão onde todos os Sábados, sempre que o Sol sorria, lá estavam os miúdos de ranho no nariz e pele queimada de horas de autogestão, sem protecção solar. O rapaz observava-os: barulhentos, diziam asneiras, daquelas que em casa lhe diziam que eram proibidas. Riam-se e gritavam enquanto se deixavam ir, num grande salto para o mar. Do pontão para o mar. Ele sabia que eles podiam, porque eram os miúdos da rua, que desde cedo andavam sozinhos nas ruas de Cascais e tiravam os calções, dando mergulhos de cuecas. O rapaz não tinha autorização para o fazer, achava ele. Era perigoso e o pai não ia permitir. Mas a curiosidade foi crescendo, à medida que o rapaz cresceu e ele queria muito dar um mergulho do pontão. Ser um daqueles miúdos, naquele momento, que saltavam para dentro de água e gritavam cheios de energia e diversão.
Primeiro com a mão dada ao pai, depois sem a mão, já se podia aproximar para ver. Um dia, na praia do pontão, o pai do rapaz disse-lhe: “ - Queres experimentar saltar?” O rapaz arregalou os olhos, o coração disparou e o sorriso formou-se: “- Do pontão?” O pai confirmou com a cabeça. O rapaz disse-lhe que sim, entusiasmado mas nervoso. O pai explicou-lhe:
“ - Temos observado como fazem os miúdos que vêm para aqui há muito tempo. Tu tens observado. Vais agora observar sozinho, de perto e com muita atenção e perceber como é que eles fazem, para onde mergulham, de que forma e com que cuidados. Depois de observares e perceberes, estás preparado para experimentar.”
O rapaz sentiu-se a tremer por dentro, um tremer de adrenalina que gostou de sentir. Sugeriu que o pai viesse com ele. O pai disse-lhe: “ - Eu não quero ir. Eu fico aqui a ver-te. És tu que queres saltar, podes ir saltar depois de perceberes bem como é que os outros miúdos fazem. Nadar já sabes, por isso podes ir sozinho.”
O rapaz respirou fundo, virou as costas ao pai e aproximou-se dos rapazes. Durante 10 minutos observou, examinou, estudou e aprendeu qual seria o melhor ângulo, que força dar ao salto, onde mergulhar, como voltar para cima. Esfregou os olhos, ajeitou o cabelo encaracolado, já seco do tempo de observação e saltou. Saltou do pontão, para o local onde saltavam os miúdos, na mesma posição que os miúdos.
O pai viu, com o coração lá dentro de si um bocadinho apertado, mas por fora com um sorriso tranquilo, um olhar observador e um acenar que dizia sem dizer: “ – Tu já és capaz. Eu sei que és e tu serás.”
O rapaz conseguiu e nessa noite sonhou com um troféu num concurso de mergulhos.
Este salto foi um salto de autonomia. Dos grandes, mas para o qual o rapaz estava preparado. E o pai também. O rapaz hoje é um adulto, pai como o seu, ou ainda não. Mas dá saltos, daqueles grandes e de grande responsabilidade, quando é preciso e lembra-se do acenar do pai que dizia sem dizer, naquele dia e noutros: “ – Tu já és capaz. Eu sei que és e tu serás.”

Rita Castanheira Alves

terça-feira, 3 de março de 2015

Por favor, abra uma excepção: com os seus filhos, quando se tornarem adolescentes.

Quem nos mantém à distância, não nos procura, não partilha o que se passa e nos fala torto, geralmente afasta-nos.
Isto é mesmo assim, na vida, com quem nos rodeia, com os amigos de sempre ou aqueles mais recentes.

Mas por favor, abra uma excepção: com os seus filhos, quando se tornarem adolescentes.

Daqueles calados, faladores mas refilões, que insistem em ficar no quarto, que sentem que não são compreendidos e que é melhor falarem toda a noite no whatsapp com os amigos ou publicarem no facebook como estão irritados ou frustrados. Dos filhos que respondem torto, que entram no carro e ficam calados, aos que respondem por monossílabos.

A vontade é calar-se, se calhar nem sequer tentar, para não se irritar com a maneira torta de falar ou o ar de seca com que responde. A vontade é deixá-lo estar e esperar que cresça ou que esteja melhor ou que finalmente vá ter consigo e fale. Mas enquanto crescem e não crescem, enquanto ficam excessivamente calados e incompreendidos, vale a pena abrir a excepção e não ficar igualmente calado, a dar todo o espaço. O perigo é esse espaço ficar excessivamente grande.

Envie um email com algo que possa interessar ao seu filho ou simplesmente com uma piada, deixe-lhe um presente simbólico em cima da secretária, passe a ser o pai que escreve SMS e de vez em quando deixe-lhe um beijo ou um abraço através das tecnologias. Vá dando abraços e mostrando entusiasmo quando o vê, alegria por estarem juntos e manifeste que faz questão que passem tempo juntos. Corte do jornal um artigo sobre um ídolo do seu filho e dê-lhe ao final da noite, antes de ir dormir. Diga-lhe, escreva-lhe, desenhe que gosta dele. Não o faça para toda a gente ver, só para o seu filho.

A resposta pode não ser nenhuma, um dia mais torta, outro dia só um "hum". Dê-lhe espaço, sim, mas não deixe de lhe mostrar que está ali mesmo, sem invadir o espaço, mas no espaço.

Por favor, respire fundo, mas por favor abra uma excepção.

Rita Castanheira Alves

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Porque é Carnaval... Ninguém leva a mal...

Porque é Carnaval deixa-me mascarar de super-herói, mãe...
Deixa-me experimentar o papel de princesa quando todos dizem que sou um princípe, deixa-me usar cabelos compridos de rapariga, pai.
Porque é Carnaval, pai, deixa-me pôr um bigode de rapaz e vestir as calças do mano.
Porque é Carnaval, vou pintar as unhas, vou ser uma bruxa ou um vampiro. Deixa-me vestir uma roupa que inventei, mas que é a melhor máscara do mundo. Porque é Carnaval, deixa-me pintar os olhos, pôr purpurinas no cabelo e usar aquelas luvas de renda, mãe.
Porque é Carnaval deixa-me vestir a pele de quem quiser, experimentar estar noutros sapatos e sentir o mundo noutras personagens. Deixa-me ensaiar e libertar-me porque é Carnaval.
Porque é Carnaval... Ninguém leva a mal...

Aproveite o Carnaval e a vontade dos seus filhos quererem vestir outras peles, para lhes permitir e facilitar o ensaio de outras identidades, outros papéis, outras situações, fundamental durante a infância e adolescência para a construção da(s) identidade(s).


Rita Castanheira Alves