segunda-feira, 6 de julho de 2015

Há muito para fazer e descobrir antes de ler, escrever e somar: o pré-escolar



São diversas as opiniões dos profissionais ligados à educação e à psicologia relativamente às competências a desenvolver e a estimular nas crianças antes da entrada no 1º ciclo.
Nos jardins-de-infância seguem-se directrizes e planos normativos, mas há muito espaço para abordagens e perspectivas diferentes. Em casa, há pais que estimulam desde cedo umas competências em detrimento de outras.
Na idade pré-escolar e, entenda-se que a mesma se estende desde que a criança nasce até à entrada no 1º ciclo, há muito por fazer e acima de tudo, descobrir. Dar os primeiros passos no desafio de descobrir quem é, no aprender a ser pessoa, a distinguir-se dos outros, a criar uma individualidade, a sentir-se gostada e a saber gostar.
É tempo de desenvolver as competências que denomino “assuntos de toda a vida e mais além”, ou seja, capacidades e aprendizagens que serão a base para a vida real, no mundo, com os outros e consigo mesmo. Esta fase é essencial para os pais e educadores “trabalharem”, de forma natural, no dia-a-dia, em brincadeiras e nas rotinas com a criança, a tolerância à frustração, a auto-estima, a auto-confiança, a persistência, a solidariedade, a partilha, os limites e o saber errar e sem nunca esquecer, a literacia emocional, dando-lhes a possibilidade de conseguirem identificar em si, nos outros, expressar e regular as emoções, competência transversal para todas as aprendizagens que se seguem, seja na educação formal ou na vida além escola.
Dar os primeiros passos na autonomia e na independência, num jogo gradual, com muita segurança e muitos elogios, para que a criança desde cedo e de forma natural, consiga sentir-se segura, capaz de gerir os desafios que virão em qualquer momento.
Todas estas capacidades são exemplo de capacidades essenciais para a preparação para a vida e para as aprendizagens escolares formais. Uma criança feliz, tranquila, competente pessoal, social e emocionalmente terá maior probabilidade de ter sucesso académico e estar preparada para os desafios mais formais da educação, porque serão também crianças mais motivadas intrinsecamente.
Importante nesta fase, a criação de desafios e situações, adequados às características e fase de desenvolvimento da criança, para desenvolver a capacidade de resolução de problemas. Saber que pode ser difícil, mas que é possível tentar e no meio disto ajudá-la a saber errar, porque na escola irá errar para aprender. Como tal, saber acima de tudo errar, confrontar-se com o erro e com a nova tentativa e saber que isso faz parte da aprendizagem de todos nós, até dos pais. Ajudar a par do erro, a criança a arriscar, a compreender os riscos e a tomar decisões com os riscos que tem, seja numa simples escolha de duas hipóteses de brincadeira.
Importante também nesta fase, e de todas as formas que se queira, o ensino/desenvolvimento da criatividade e da imaginação. Ajudar a criar, a imaginar, seja por histórias, teatros caseiros, brincadeiras de tapete ou músicas. A criatividade é fundamental para a preparação da criança para a fase das aprendizagens escolares. Na fase pré-escolar, a criatividade de todas as formas é um grande recurso e um ingrediente que se pode usar bastante, a par com a curiosidade. Ajudá-la a olhar para o que a rodeia, estimular o questionamento, responder-lhe quando pergunta, perguntar-lhe também, procurar respostas, mesmo que não sejam encontradas.
É tempo de experimentar, dar tempo à criança para experimentar, conseguir dar-lhe espaço para isso, proporcionar-lhe experiências novas e descobrir o que elas significaram e o que restou das mesmas.
É tempo de desenvolver competências artísticas, agilidade motora e proporcionar saúde física também, através da actividade física seja ela formal ou informal, envolvendo, por exemplo, toda a família em caminhadas ou saltos à corda.
Proporcionar à criança o contacto com outras crianças e adultos e jovens. Pessoas diversas, para experimentar diversas relações, desenvolver a socialização, saber estar e partilhar, ouvir e conversar. Ajudá-la a pôr-se no papel dos outros e a respeitá-los e fazer-se respeitar. É tempo ideal para lhe proporcionar brincadeiras diversas, com meninos e com meninas, com bonecas, carrinhos, animais ou puzzles. Jogos de concentração e de manutenção de foco em tarefa, que serão essenciais mais tarde para as aprendizagens formais no 1º ciclo.
Nesta fase, a brincadeira com a criança é o maior motor de desenvolvimento de todas estas capacidades essenciais para o que se segue. A brincadeira é o meio para desenvolver tudo o que aqui considerei importante, tornando as aprendizagens naturais, descontraídas, fáceis, mas com grande eficácia e acima de tudo, tendo na base, a possibilidade de criação de vínculos afectivos com a criança.
Tanta competência importante, tanta possibilidade determinante para a vida numa fase que antecede as aprendizagens formais, a grande tarefa de aprender e experimentar ser Feliz, que saber escrever o nome todo correctamente, decorar letras e contar até 20 sem enganos poderá vir noutro tempo, quando o 1º ciclo chegar. Continuo a achar que há muito para fazer antes disso, e tão importante. Ou se calhar, com o foco e investimento nestas competências pessoais, sociais e emocionais, gradualmente e antes do 1º ciclo, a vontade da criança em saber o seu nome, em aprender a contar e a mostrar sinais de que está preparada para a aprendizagem escolar aparecerá espontaneamente. Vale a pena tentar. 

Rita Castanheira Alves

OPTIMISMO - Ingrediente fundamental para filhos saudáveis


GENEROSIDADE - Ingrediente fundamental para filhos saudáveis


segunda-feira, 15 de junho de 2015

Apresentação do Livro "A Psicóloga dos Miúdos" na Feira do Livro de Lisboa e a conversa sobre o que é isto de educar, ser pai, ajudar a crescer os mais novos...

O céu nublado, as nuvens carregadas e a chuva que teimava em não parar. Este cenário dizia-nos que seria um dia tão bom para se ficar em casa, no sofá a ler, a ver filmes e a jogar com a família e amigos. 
Mas era o último dia da Feira do Livro de Lisboa e às 17 horas a apresentação do meu livro "A Psicóloga dos Miúdos" e uma conversa com os participantes sobre isto de educar e ajudar a crescer os mais novos. 
"Cancelamos? Não cancelamos?" "Não há cadeiras. Estão molhadas." "Os eventos estão a ser todos cancelados, a feira está quase sem ninguém."

Mas há um compromisso, uma vontade de conversar e por isso não vou cancelar, valerá sempre a pena.

E às 17 horas, a chuva resolveu descansar e dar-nos um céu mais aberto. As cadeiras já secas, o palco molhado mas preparado e a pouco e pouco, daqui e dali chegaram amigos, pais, clientes, ex-clientes, professores, família e tantos outros que íam passando, sentavam-se, ficavam em pé, ouviam o que por ali se dizia a propósito do meu novo livro "A Psicóloga dos Miúdos". 

Foi uma conversa curta, mas animada, com sorrisos cúmplices, partilhas importantes, dúvidas de pais coragem e entusiasmados. 

O meu agradecimento a todos e a cada um dos que lá esteve, mesmo quando o sofá seria certamente mais apetitoso. 
O meu obrigada pelos que estiveram novamente, pelos que sei, fizeram tudo para ir, pelos que surpreenderam e dos quais tinham saudade. 
O meu obrigada a todos os que não conheciam mas ficaram para conhecer. 


Afinal há dias de chuva bem felizes!

Rita Castanheira Alves

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Porque a vida passa. Há que ser mesmo criança quando se é criança


Hoje sonhei com os meus avós. Na casa onde passava os Verões com os dois, no meio de couves, flores, terra e uma piscina de cimento que arranhava os pés, para nos lembrar que foi feita com muito carinho e trabalho pelo meu avô, no seu silêncio.
Sonhei que lá estava mas era crescida. Já não era criança. A minha avó costurava e o meu avô andava por lá e eu estava a tirar ou a estacionar o carro, não sei bem.
Mas era agora, crescida, mas eles como antigamente, quando eu era criança.
Acordei e fiquei triste subitamente. “Tempos que não voltam”, pensei.

Mas sem tirar a cabeça da almofada, lembrei-me que era tempo de assinalar o dia da criança na página do projecto e de lembrar a importância deste dia. Um dia que, sim, deve ser assinalado, deve existir e deve ser marcado. Para nos lembrar do que é ser criança, do que é direito de criança, de que é preciso parar e olhar para os mais pequenos de altura e não esquecer que são também pequenos a crescer, com muita vontade de brincar, com muita necessidade de mimo e fantasia e com um tempo e rtimo próprios. Que desejam sorrir e dão abraços tão bons e tão cheios.
 
Acordada lembrei-me de mim pequena. Lembrei-me da marquise que existia na minha casa, que existia, aliás nos anos 80/90 em grande parte das casas dos subúrbios. Uma caixa de alumínio, que geralmente não tinha grande utilidade.
 A caixa de alumínio da minha casa era local de brincadeira, entre almofadões grandes para relaxar, canetas, bonecas e outras tantas coisas que não eram necessariamente brinquedos à primeira vista, mas eram até mais do que muitos dos brinquedos da loja. Na marquise brincava horas sem parar, geralmente até o sol se pôr, no verão mais, porque o sol ía dormir mais tarde e porque estava mais quentinho. Convidava os meus pais para virem beber chá ou ao restaurante que lá montava com os bancos da cozinha e os panos turcos da loiça. Lá ficava a trocar de roupa, a escrever com giz no chão ou a inventar histórias impossíveis, deitada nos almofadões, que na altura pareciam muito maiores do que realmente seriam, provavelmente.   
Quando vinham amigos, também se brincava na marquise, mas não era a mesma coisa. Aquela divisão era uma espécie de casinha só minha, onde tantas vezes passava a tarde do fim-de-semana ou brincava depois de vir da escola.
E hoje, lembrei-me deste sítio fantástico, mágico, que me acalmava, divertia, me aconchegava, que me ajudou a criar, imaginar e a ser feliz. E hoje, depois desta corrida pela memória da minha infância, parei num momento: naquela mesma marquise, o sol lá batia no final do Verão, já fraquinho mas aconchegante, a minha mãe a ir embora porque já não lhe apetecia brincar mais e eu a pensar: “É impossível deixar de gostar de brincar, eu nunca vou deixar de gostar de brincar, tenho a certeza. Às cozinhas, aos puzzles, aos restaurantes, aos medicos, às secretárias ou às lojas.
Hoje, lembrei-me como se fosse ontem que lá estivesse na marquise, lembrei-me exactamente como me sentia quando brincava, como era sentir-me satisfeita, motivada, envolvida, descontraída e feliz por poder brincar. E como ainda sei exactamente que sensação é essa e como ainda a tenho nos novos interesses  e descobertas que vou tendo e pelos quais me vou apaixonando.
Abri os olhos, sorri, aceitei a saudade e fui desejar um feliz dia da criança ao mundo.

Acima de tudo assinalar o dia, porque foi mesmo importante a oportunidade de ter sido criança. Acima de tudo assinalar o dia, porque é determinante para o crescimento ter a oportunidade de ser criança. Acima de tudo assinalar o dia porque a vida passa.

Rita Castanheira Alves

Para todas as crianças, pequenas ou crescidas!


domingo, 24 de maio de 2015

ALERTA AOS PAIS com filhos em idade escolar

Pais,

é tempo de exames, testes, final de ano e stress se passa ou não passa, se tem muitos cincos na pauta ou só um, se vai ter negativas, se quer saber daquilo ou não quer, é certo. E os pais preocupam-se, naturalmente.

Mas...

Alerto para o facto de andarem por aí muitos miúdos, daqueles mesmo geniais, bons e razoáveis, que andam a chorar às escondidas, debaixo dos lençois quando vão dormir, que acham que são uma porcaria e estão em ansiedade excessiva com estes últimos testes ou exames, que sentem que nunca vão corresponder ao que (muitas vezes os pais) esperam deles.

E não contam aos pais.

E porque a auto-estima é essencial para a saúde mental e felicidade e porque nenhum miúdo devia pensar que não vale nada, só porque não consegue chegar à nota que deveria, mesmo quando passa horas à frente dos livros... Agora mesmo, e mesmo que o seu filho esteja no meio dos livros, páre tudo e vá ter com ele. Dê-lhe um abraço e diga-lhe que vai correr tudo bem e que percebe que não é sempre fácil.

Acredite que será a sua melhor "nota" e o melhor estudo para o seu filho.

Rita Castanheira Alves