segunda-feira, 1 de junho de 2015

Porque a vida passa. Há que ser mesmo criança quando se é criança


Hoje sonhei com os meus avós. Na casa onde passava os Verões com os dois, no meio de couves, flores, terra e uma piscina de cimento que arranhava os pés, para nos lembrar que foi feita com muito carinho e trabalho pelo meu avô, no seu silêncio.
Sonhei que lá estava mas era crescida. Já não era criança. A minha avó costurava e o meu avô andava por lá e eu estava a tirar ou a estacionar o carro, não sei bem.
Mas era agora, crescida, mas eles como antigamente, quando eu era criança.
Acordei e fiquei triste subitamente. “Tempos que não voltam”, pensei.

Mas sem tirar a cabeça da almofada, lembrei-me que era tempo de assinalar o dia da criança na página do projecto e de lembrar a importância deste dia. Um dia que, sim, deve ser assinalado, deve existir e deve ser marcado. Para nos lembrar do que é ser criança, do que é direito de criança, de que é preciso parar e olhar para os mais pequenos de altura e não esquecer que são também pequenos a crescer, com muita vontade de brincar, com muita necessidade de mimo e fantasia e com um tempo e rtimo próprios. Que desejam sorrir e dão abraços tão bons e tão cheios.
 
Acordada lembrei-me de mim pequena. Lembrei-me da marquise que existia na minha casa, que existia, aliás nos anos 80/90 em grande parte das casas dos subúrbios. Uma caixa de alumínio, que geralmente não tinha grande utilidade.
 A caixa de alumínio da minha casa era local de brincadeira, entre almofadões grandes para relaxar, canetas, bonecas e outras tantas coisas que não eram necessariamente brinquedos à primeira vista, mas eram até mais do que muitos dos brinquedos da loja. Na marquise brincava horas sem parar, geralmente até o sol se pôr, no verão mais, porque o sol ía dormir mais tarde e porque estava mais quentinho. Convidava os meus pais para virem beber chá ou ao restaurante que lá montava com os bancos da cozinha e os panos turcos da loiça. Lá ficava a trocar de roupa, a escrever com giz no chão ou a inventar histórias impossíveis, deitada nos almofadões, que na altura pareciam muito maiores do que realmente seriam, provavelmente.   
Quando vinham amigos, também se brincava na marquise, mas não era a mesma coisa. Aquela divisão era uma espécie de casinha só minha, onde tantas vezes passava a tarde do fim-de-semana ou brincava depois de vir da escola.
E hoje, lembrei-me deste sítio fantástico, mágico, que me acalmava, divertia, me aconchegava, que me ajudou a criar, imaginar e a ser feliz. E hoje, depois desta corrida pela memória da minha infância, parei num momento: naquela mesma marquise, o sol lá batia no final do Verão, já fraquinho mas aconchegante, a minha mãe a ir embora porque já não lhe apetecia brincar mais e eu a pensar: “É impossível deixar de gostar de brincar, eu nunca vou deixar de gostar de brincar, tenho a certeza. Às cozinhas, aos puzzles, aos restaurantes, aos medicos, às secretárias ou às lojas.
Hoje, lembrei-me como se fosse ontem que lá estivesse na marquise, lembrei-me exactamente como me sentia quando brincava, como era sentir-me satisfeita, motivada, envolvida, descontraída e feliz por poder brincar. E como ainda sei exactamente que sensação é essa e como ainda a tenho nos novos interesses  e descobertas que vou tendo e pelos quais me vou apaixonando.
Abri os olhos, sorri, aceitei a saudade e fui desejar um feliz dia da criança ao mundo.

Acima de tudo assinalar o dia, porque foi mesmo importante a oportunidade de ter sido criança. Acima de tudo assinalar o dia, porque é determinante para o crescimento ter a oportunidade de ser criança. Acima de tudo assinalar o dia porque a vida passa.

Rita Castanheira Alves

Para todas as crianças, pequenas ou crescidas!


domingo, 24 de maio de 2015

ALERTA AOS PAIS com filhos em idade escolar

Pais,

é tempo de exames, testes, final de ano e stress se passa ou não passa, se tem muitos cincos na pauta ou só um, se vai ter negativas, se quer saber daquilo ou não quer, é certo. E os pais preocupam-se, naturalmente.

Mas...

Alerto para o facto de andarem por aí muitos miúdos, daqueles mesmo geniais, bons e razoáveis, que andam a chorar às escondidas, debaixo dos lençois quando vão dormir, que acham que são uma porcaria e estão em ansiedade excessiva com estes últimos testes ou exames, que sentem que nunca vão corresponder ao que (muitas vezes os pais) esperam deles.

E não contam aos pais.

E porque a auto-estima é essencial para a saúde mental e felicidade e porque nenhum miúdo devia pensar que não vale nada, só porque não consegue chegar à nota que deveria, mesmo quando passa horas à frente dos livros... Agora mesmo, e mesmo que o seu filho esteja no meio dos livros, páre tudo e vá ter com ele. Dê-lhe um abraço e diga-lhe que vai correr tudo bem e que percebe que não é sempre fácil.

Acredite que será a sua melhor "nota" e o melhor estudo para o seu filho.

Rita Castanheira Alves

domingo, 17 de maio de 2015

A importância de parar e relaxar. Mesmo quando se é miúdo...E sim, quando há exames.

Este fim-de-semana, depois da manhã de consultas de Sábado, resolvi parar e permiti-me relaxar.

Desde o início do ano que os projectos profissionais têm ocupado um papel de destaque, que tem sido muito desafiante, motivo de muita felicidade, mas também de um inevitável cansaço e desgaste, que precisa ser gerido. Especialmente quando se trabalha com pessoas, especialmente miúdos, a crescer, com problemáticas e vidas difíceis, é preciso saber distinguir e identificar as nossas próprias dores e fazer o que é possível para que fiquem foram do consultório. E isso tornou-se regra de ouro na minha prática. Saber quando parar, saber que é importante cuidar de mim e da minha saúde mental, para poder trabalhar da melhor forma.

Permite-me ontem e hoje parar e relaxar. Deitar-me na areia, respirar fundo, mergulhar e sentir a cabeça e o corpo a ficarem mais leves, desimpedidos, tranquilos e com energia.

E esta tarde, no meio da minha permissão para descanso, observava o descanso dos outros, especialmente dos mais novos. Os que, até quase ao anoitecer, lá estavam com os pais, com os irmãos, primos ou amigos. A passear, a saltar, a jogar ou a brincar com a areia. Dos que surfam, aos que simplesmente preferem deitar-se e ouvir música. Passando pelos que fantasiam sobre uma cidade gigante de areia, até aos que correm sem parar.

Porque uma pausa das obrigações, pressões e avaliações é preciso. Respirar, desimpedir a cabeça e relaxar o corpo. Brincar, jogar e estar com os outros. Mesmo, e especialmente, quando se avizinha uma semana dos tão temidos e stressantes "exames". Nem que seja só um bocadinho.

Talvez essa pausa no estudo, contribua para alguns pontos nesse exame do seu filho, mas acima de tudo na saúde mental dele. Duvida?

Rita Castanheira Alves

segunda-feira, 11 de maio de 2015

I Simpósio de Educação & Saúde Mental - Serpa 2015 - Que privilégio

Sexta e Sábado fugi de Lisboa e fui até Serpa participar no 1º Simpósio de Educação e Saúde Mental, organizado pela Associação de Pais Abade Correia da Serra.

No final do dia de Sábado regressei a Lisboa, cansada, mas muito feliz e porque queria mesmo aproveitar o que trazia comigo desses dias, parei, sozinha, a meio do caminho. Porque às vezes, esquecemo-nos de parar, respirar, ouvir os outros e olhar à volta.

Em Serpa houve tempo para tudo isso e mais ainda. Foram muitas horas de partilha, troca de experiências, gente efervescente e de boas ideias, profissionais que continuam a acreditar e a sonhar e muita generosidade. Tudo junto... "Que privilégio eu tive" -  pensei.

Obrigada a todos os que contribuíram para esse privilégio. Foi mesmo muito bom.


Rita Castanheira Alves


sábado, 2 de maio de 2015

A força de mãe, da minha mãe.


 À minha Mãe.
 
Quando tinha 18 anos, passei por uma fase difícil. Talvez apenas por ser adolescente e por estar a construir a minha identidade. Todavia, foi má. Tão má que, durante alguns anos, não queria sequer falar sobre esses quase 12 meses, com medo de lá ir parar outra vez e não conseguir sair. Já estudava psicologia, muito no início, sem gostar e sem ter a mínima ideia daquilo que iria fazer, longe de saber que faria o que faço hoje e que estaria onde estou.
Por variadas razões, deprimia-me muito, sentia-me muito triste, sem vontade de nada e, fisicamente, o meu corpo resolveu gritar. Emagreci cerca de dez quilos, fiquei doente e nada me fazia sentir bem. No dia em que celebrei o meu 19º aniversário, fiz uma grande festa à noite, para me animar, pensava eu. Convidei muitos amigos e, mesmo sem força, fui jantar. Não correu bem; não estava bem e, depois de estar exausta, cheia de vontade de chorar e sem conseguir comer, resolvi deixar a festa e fui para casa. Cheguei tarde, lembro-me. A minha mãe acordou e foi ter comigo à cozinha. Chorei, novamente. Nesse ano chorava demasiadas vezes, à frente de quem quer que fosse; era muito constrangedor. Chorei, a minha mãe deu-me a mão, ouviu-me e, nessa noite, pela primeira vez, acho que consegui explicar o que realmente se passava comigo… à minha mãe. Ela ouviu-me, chorou comigo de vez em quando, fez-me festinhas e um chá. Foi-me dando sinais que me permitiram continuar, pelo seu olhar, pela compreensão, pela paciência... Não sei.
No final, disse-me: «Faz aquilo de que gostas e rodeia-te de quem te faz realmente bem.» Não sei se foi o que me disse, não sei se foi o apoio que me deu, não sei se tinha chegado o momento de, finalmente, melhorar. Sei que, depois das palavras da minha mãe, me senti tranquila. Como já não me sentia há muito tempo. Finalmente, estava descansada e menos angustiada.
No dia seguinte, as boas sensações ainda permaneciam dentro de mim e, devagarinho, comecei a deixar sair a tristeza, a fazer aquilo de que gostava e a estar com quem realmente me fazia bem — passei a ser como desejava. Acho que a minha mãe nunca percebeu como me «curou». Contudo, «curou» mesmo e eu nunca me esquecerei dessa força incrível. A força de mãe, da minha mãe.

Rita Castanheira Alves

A todas as mães. Mimem-se, vivam, não se esqueçam de quem são. Nunca.


Um dia, eles crescem e devem ir embora, mas nós ficamos só connosco... novamente.

Eu sou a Sofia. Fui mãe aos 33 anos e há muito que desejava sê-lo. Foi a melhor experiência da minha vida. Tão boa, que quis aproveitá-la ao máximo, talvez um máximo exagerado, penso hoje.
A Lara, a minha filha, nasceu e precisava muito de mim. Era uma criança difícil. Hoje, vejo que era como todas as outras. As birras normais, cólicas, difícil adaptação ao sono, nada de especial, sempre foi saudável. Para mim, novata na experiência da maternidade, ela precisava mais do que os outros e eu queria dar-lhe tudo o que ela precisava. Na altura, tinha um trabalho de que gostava, mas, com o nascimento da Lara, fiquei em casa e parece que o trabalho já não interessava. Quando começou a falar, a Lara dizia-me para eu não ir trabalhar, que era mais divertido ficarmos juntas e, de facto, notava que ela precisava de mim, do meu tempo, da minha dedicação. O tempo que sobrava ao final do dia não chegava, nem os fins-de-semana, mesmo dedicando-me exclusivamente à Lara. O Rafael, o pai da Lara, dizia-me que achava um exagero e que também queria ter um tempo comigo. Eu compreendia, mas dizia-lhe que depois teríamos tempo, quando a Lara crescesse mais um bocadinho.
Resolvemos, então, que a Lara seria mais equilibrada e completa se eu deixasse o trabalho e a acompanhasse todo o dia, nas suas tarefas e actividades. Ela ficava tão feliz e eu também. Não precisávamos de mais ninguém e, na verdade, ela era uma menina muito especial, sabia exactamente o que queria, sabia escolher e não gostava de toda a gente. Eu também não a obrigava a gostar ou a interagir com quem não gostava e, a bem dizer, nessa altura deixei de ter tempo para alguns amigos. Ser mãe era intenso, exigente e uma fase que passaria em breve. Aproveitava ao máximo para estar com a Lara e dava-me muito gozo falar sobre ela ao telefone com alguns familiares e amigos, contar-lhes as evoluções da minha filha, as conversas engraçadas que temos e como é uma menina inteligente e feliz. Parece que nem me apetecia ouvi-los falar de outras coisas.
O crescimento da Lara foi muito acompanhado por mim. Como tinha sempre tempo, raramente recorria aos avós para ficarem com ela ou irem buscá-la. Evitava também que ficasse a pernoitar com eles. Lembro-me de o fazermos uma vez, porque o Rafael insistiu muito, e os dois só falámos dela, telefonámos várias vezes à noite e no dia seguinte fomos buscá-la mais cedo do que o previsto.
Hoje, pensando bem, acho que fui só eu que falei muito sobre a Lara e que telefonei nessa noite. O Rafael queria estar comigo. Talvez sentisse falta do tempo em que éramos só os dois. Mas ele tinha de compreender: o amor de mãe é diferente de tudo.
Ele tinha uma boa relação com a Lara, mas havia momentos em que lhe dizia para brincar sozinha e pedia que nos deixasse ver um filme. Aquilo irritava-me. Podíamos ver um filme os três. O Rafael dizia que estava farto de ver desenhos animados. Não percebia que era importante para a Lara ser incluída e que rapidamente ela cresceria.
A Lara foi crescendo, foi sempre uma aluna exemplar, sempre lhe dei muito apoio, atenção e isso fez com que crescesse aplicada, organizada e estável. Quando estava na escola, dedicava-me a preparar-lhe uma surpresa ou a organizar-lhe exercícios para trabalharmos. Aos fins-de-semana fazíamos actividades em família, dedicadas à Lara, que a estimulavam muito.
A Lara tinha poucas influências, mas isso parecia-me bem na altura. Não havia demasiadas influências que não podia controlar e também não me tiravam tempo com ela.
A Lara cresceu, como eu previa, demasiado rápido, tornou-se adolescente e começou a querer sair com os amigos.  Depois das aulas, queria vir sozinha para casa ou ficar em casa de uma amiga. Fazia-me tanta falta. Sempre que me pedia, eu tinha tanta vontade de lhe dizer para vir para casa, para irmos as duas às compras ou ao cinema, mas controlava-me. Ficava triste e a sentir-me sozinha, à espera que ela chegasse.
A relação com o Rafael estava diferente… Acho que é normal, fomos pais, mudou muita coisa e não poderíamos continuar iguais. Ele habituou-se a estar mais sozinho ou a estarmos sempre os três e, agora, que a Lara não estava, era estranho estarmos só os dois.
Eu deixei para trás o meu trabalho, os objectivos profissionais que tinha antes de ser mãe e não construi uma carreira; nunca cheguei a concluir o curso que tinha iniciado meses antes de engravidar. Deixei-me ir pela carreira de mãe a tempo inteiro. Na altura, soube-me muito bem e a Lara precisou, foi importante para ela.
Os meus olhos só se dirigiam para a Lara. Ela precisava de muita atenção e dedicação e dava-me um gozo tremendo olhar para a minha filha e vê-la crescer. Deixei de olhar para o espelho, para mim, para o meu cabelo, para as roupas e acessórios que antes me costumavam envaidecer e fazer-me sentir mais especial em certas ocasiões. Quando me tornei mãe, era como se a Lara fosse aquilo que mais me envaidecia e me fazia brilhar, uma filha tão especial. Engordei, deixei o ginásio e de fazer as corridas matinais habituais. Levava a Lara ao ballet e à natação, pelo que não sobrava tempo para o meu desporto.
Quando a Lara saía com os amigos, eu lembrava-me dos meus antigos amigos. Aqueles que, depois da maternidade, deixei de ver com regularidade e que antes eram amigos de copos e risadas. A Lara era pequena, não podia deitar-se tarde e, na altura, muitos deles ainda não eram pais, tinham hábitos muito diferentes e os miúdos absorvem tudo, pensava eu.
Hoje, a Lara é adulta, alugou uma casa e vive com amigos. Tem um namorado, trabalha como enfermeira, é feliz, saudável e alegre.
Hoje acordei e pensei: «E eu? Quem sou eu?»
Continuo a ser mãe, mas já não sou mãe a tempo inteiro. Isso deu espaço para pensar no resto que foi indo com o tempo em que era mãe a tempo inteiro. Deu espaço para mostrar o que fui adiando ou eliminando, pelo encanto e dedicação exclusiva ao desafio da maternidade. Hoje, acho que me esqueci de mim. Hoje, a Lara diz-me para eu me arranjar, pensar mais em mim e investir em coisas que me interessem. Não sei como se faz, tenho receio, acho que já é tarde, já não me conheço, nem conheço quase ninguém, nem mesmo o Rafael. 
Hoje, penso que, se voltasse atrás, agarrava da mesma forma especial o desafio de ser mãe, com orgulho, dedicação e empenho, mas não largava tudo o resto.
Não deixava de ser pessoa. 

Rita Castanheira Alves