Porque os miúdos não vêm com manual de instruções e porque se viessem também não tinha piada nenhuma... Vá, de vez em quando tinha alguma piada...
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
E quando for "normal" os adolescentes irem ao psicólogo?
E hoje uma das minhas clientes apareceu na consulta com esta camisola. Achei tão gira que pedi para tirar uma foto.
Garanto que não há uniformes disponíveis nas minhas consultas. ;)
Mas quem sabe se mais "miúdos e miúdas" usarem mensagens do género, a ida ao psicólogo não se torna (ainda) mais aceite e menos estigmatizada no meio dos adolescentes? Fica a ideia.
A verdade é que a maioria dos adolescentes, depois de ir as primeiras vezes, gosta, reconhece valor e utilidade e decide continuar.
Porque não tentar aí em casa? Com os miúdos adolescentes, vale a pena explicar, conversar e negociar: "- Acho que é importante ires por este, este e este motivo. Podemos fazer a experiência, vais a uma primeira consulta e depois decides se queres continuar."
Fica a dica para os pais de adolescentes.
Quem sabe se um dia também não usam uma camisola "Love my therapist"...
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
Porque os pais são artistas, educadores, técnicos de motricidade e animadores...
A criação é de uma mãe, uma mãe que conheço há tanto tempo, quase como me conheço a mim. Com quem criei, inventei, sonhei, aprendi e cresci. Quem sabe, se um bocadinho da Psicóloga dos Miúdos não veio desta mãe, até antes de ser mãe. Estou certa de que sim.
Hoje tem 31 anos e é mãe de dois rapazes, quase, quase com 3 anos. Os dois sim, porque são gémeos.
Há uns dias fui lá a casa, como amiga, não como psicóloga dos miúdos. Fui lá conversar com a mãe, como amiga, e brincar com os miúdos como amiga também, que é tão bom.
E descobri que tinham feito... Fantoches! Fantoches de pés e de mãos! Os gémeos com a mãe. Folhas de papel, canetas, palhinhas e fita-cola. Tão simples, mas tão rico. Uma actividade inventada por uma mãe, que ocupou uma manhã e que fez sorrir os miúdos e ajudou-os a desenvolver a imaginação, a criatividade, a motricidade e o carinho de manos e mãe. E muito mais coisas, certamente.
Como amiga, adorei e não esperava o contrário desta mãe. Como Psicóloga, admirei e quis partilhar. Afinal, os pais podem mesmo ser os verdadeiros artistas, educadores, técnicos de motricidade, animadores. E só com palhinhas, folhas e canetas.
Que tal experimentar aí em casa? Fico à espera de partilhas de actividades simples, mas tão grandes e completas.
Hoje tem 31 anos e é mãe de dois rapazes, quase, quase com 3 anos. Os dois sim, porque são gémeos.
Há uns dias fui lá a casa, como amiga, não como psicóloga dos miúdos. Fui lá conversar com a mãe, como amiga, e brincar com os miúdos como amiga também, que é tão bom.
E descobri que tinham feito... Fantoches! Fantoches de pés e de mãos! Os gémeos com a mãe. Folhas de papel, canetas, palhinhas e fita-cola. Tão simples, mas tão rico. Uma actividade inventada por uma mãe, que ocupou uma manhã e que fez sorrir os miúdos e ajudou-os a desenvolver a imaginação, a criatividade, a motricidade e o carinho de manos e mãe. E muito mais coisas, certamente.
Como amiga, adorei e não esperava o contrário desta mãe. Como Psicóloga, admirei e quis partilhar. Afinal, os pais podem mesmo ser os verdadeiros artistas, educadores, técnicos de motricidade, animadores. E só com palhinhas, folhas e canetas.
Que tal experimentar aí em casa? Fico à espera de partilhas de actividades simples, mas tão grandes e completas.
Rita Castanheira Alves
domingo, 19 de outubro de 2014
Como se fala da morte de um(a) pai/mãe com uma criança? Perguntas e respostas de ajuda num tema tão difícil
Um tema difícil. E que sabemos, será sempre difícil. Mesmo quando crescemos, continua a ser difícil.
Não queremos nunca que aconteça... E quando acontece? Quando se é pequeno e o pai ou a mãe morre? Como se fala sobre isto? Fala-se? O que se faz?
A Revista Sábado pediu a minha colaboração enquanto Psicóloga (dos Miúdos), para responder a algumas perguntas e a semana passada, o artigo foi publicado. Há sempre limitação de caracteres, participações de outros profissionais e testemunhos, pelo que a maioria do conteúdo das respostas que elaborei, não foi publicado.
Não queremos pensar muitas vezes neste tema, nem queremos ter que saber o que fazer, mas sei que, infelizmente, pode ser útil para algumas famílias.
- Quando
uma criança perde um pai ou mãe deve-se esconder até estarem preparados para
dar notícia?
A vivência da morte de alguém que nos é próximo e querido é
sempre dolorosa e difícil, independentemente da idade. Especialmente se for do
pai/mãe presentes.
Como tal, os adultos também estão num momento emocional muito
difícil e de grande sofrimento e também eles precisam de encontrar um momento
para se sentirem o mais preparados e estáveis possível para conseguirem apoiar
e securizar a criança e apoiarem-na no seu luto. Deste modo e sendo também
difícil para os adultos, a notícia de uma morte não deve ser adiada por tempo
indefinido, mas o adulto poderá necessitar de algum tempo e algumas condições
para se sentir o mais possível capaz de apoiar e transmitir a notícia à criança
e falar sobre o assunto. No entanto, não podemos esquecer que as crianças, apesar
de serem pequenas, são excelentes observadoras e conseguem sentir quando há
mudanças e alterações, especialmente nos que lhe são mais próximos, como poderá
ser pai/mãe. No caso da criança questionar, a resposta deve ser dada.
- Existe
uma altura certa para se dizer a noticia?
A notícia de uma morte de um pai/mãe é sempre difícil, seja qual
for a altura e não existe, na verdade, uma altura ideal.
Mais uma vez, sempre que
há oportunidade, o adulto deve ponderar algumas condições para conseguir
abordar o assunto com a crianca:
- o contexto em que o
vai fazer que deve ser o mais tranquilo e familiar possível, proporcionando a
possibilidade da criança se exprimir como sentir necessidade e se sentir o mais
segura possível;
- o momento do dia, escolhendo
sempre que possível que a notícia seja dada num momento em que depois se possa
estar com a criança e apaziguá-la, acarinhá-la e ouvi-la se necessário;
- ter pessoas, se
necessário, que possam apoiar,
familiares, uma professor ou professor de confiança que possam ir ajudando a
criança durante o seu luto, criando uma rede de suporte, no entanto,
respeitando a privacidade da criança;
- ter atenção a quem
dá a notícia, nem sempre é o outro progenitor a
figura mais securizante para a criança.
- Quem
deve dizer? O pai sobrevivente, um avó? Ou qualquer pessoa?
Sempre que possível não deverá ser uma pessoa ao acaso a dar a
notícia. Uma pessoa que seja securizante e de confianca na vida da criança; o
progenitor sobrevivente se houver uma relação sólida e muito consistente com a
criança. O importante é que seja uma pessoa de referência para a criança, com
quem a criança se sinta normalmente (antes deste acontecimento) acompanhada,
segura no dia-a-dia e que a possa acalmar e acompanhar.
- De
que forma se deve dizer? Qual é a mensagem principal?
É frequente que a crianca já se possa ter deparado com o assunto
da morte, seja através de uma história de desenhos animados, a história de um
livro ou até de uma planta ou de um peixe de estimação. Não há uma forma única,
uma frase mágica, muito menos quando se fala de um pai/mãe próximo(a) e
presente.
É essencial:
- Adaptar sempre à idade e características
da criança;
- Tratar “as coisas pelo nome”: não é
fácil para os adultos chamar morte à morte, especialmente quando falamos com
uma criança. No entanto, é importante usar a palavra. Por exemplo, usando o
ciclo da vida para a explicação, sendo a morte como uma das fases na vida de
qualquer ser vivo;
- Tentar nao ficcionar em demasia ou
usar expressões como foi viajar para muito longe, dormiu e nunca mais acordou
devem ser evitadas para não levar ao desenvolvimento de medos e preocupações
com os seus próprios comportamentos e funcionamento normal do dia-a-dia. A
morte é sempre difícil de entender, mas fará de alguma forma parte da vida da
criança, seja directa ou indirectamente. Acima de tudo, sem ficcionar, sempre
com muita atenção em adaptar a explicação
à idade, mas dando-lhe uma resposta tão concreta quanto possível, que não dê
espaço para confabular, fantasiar e poder ganhar medos de ter certos
pensamentos ou certos comportamentos inventados pela própria criança.
Esclarecer que a morte não é nunca consequência do que a criança faz ou pensa;
- Responder às questões da criança,
sempre. Mesmo que a resposta possa ser um sincero “Não sei”. Na verdade,
dependendo das crenças de cada um, há certezas sobre a morte que nem os adultos
têm e isso pode ser partilhado com a criança, ajudando-a a gerir a incerteza, a
falta de algumas respostas, a possível sensação de injustiça, partilhando
também que se sente o mesmo e que é mesmo injusto;
- Transmitir a notícia e dizê-lo
devagarinho para que a criança possa ir expressando o modo como está a receber
a notícia e isso ajudar o adulto a ir adaptando a mensagem, de acordo com a
reacção da criança;
- Em qualquer situação e acima de
tudo, ir expressando o facto de ser normal ficar triste, de ser muito difícil,
para legitimar sentimentos e assim facilitar o luto.
- Existe
formas diferentes, consoante a idade? Quais? Até aos 3 anos? Dos 3 aos 7?
Dos 7 aos 10? Das 10 aos 15?
Como em qualquer assunto ou área, tambem abordar a morte deve
ser adequada nao só à idade como às características da crianca. Como tal e porque apesar da idade nos dar
algumas noções gerais, cada criança é diferente, mesmo podendo ter a mesma
idade. É importante acima de tudo conhecer bem a criança. E ter presente que
receber essa notícia é sempre muito, muito difícil.
Antes dos 2 anos é dificil a crianca entender o conceito de
morte, ou seja, perceber que é para sempre, mesmo que se explique. É possível
que a criança pergunte (no caso de já dominar a linguagem verbal) frequentemente
ou procure pelo progenitor falecido e que apresente algumas alterações no sono
e na alimentação e instabilidade, especialmente no caso de existência prévia de
uma vinculação segura. É importante ir dando-lhe a maior estabilidade possível,
acarinhando-a e dando-lhe a vinculação que necessita.
A partir dos 2 até aos
5/6, a criança ao ter maior noção de separação e perda do outro, ficará
instável emocionalmente, pode frequentemente apresentar comportamentos
regressivos ou instáveis e terá dificuldade em perceber o que aconteceu, no
entanto, deve-se referir o que aconteceu e falar sobre isso, especialmente
sendo um pai/mãe.
A partir dos 5/6 anos, a noção de morte torna-se muito mais
clara e real, inclusivamente por volta dos 5, 6 anos pode surgir o medo de
morrer ou de que alguém próximo morra. Usar vocabulário como “morte/morreu”,
“ficou muito doente e morreu”, “terminou o ciclo da vida” pode ajudar. Explicar
as causas pode ajudar a partir dos 6/7 anos, mas é muito importante ter cuidado
com a maturidade emocional da criança e evitar explicações demasiado
pormenorizadas, que possam impressionar em demasia. A criança pode não estar preparada para saber
logo tudo de uma vez.
No entanto, quando a criança pergunta o que se passou, porquê e
porque morreu, é importante responder, ainda que se possa simplificar a
explicação (por exemplo, se foi uma doença é importante adaptar a explicação
científica à idade, para que perceba). Especialmente, quando falamos de idades
mais avançadas, como os 10 anos ou claro, na adolescência. Na adolescência, é
importante uma partilha clara, sem esconder e sem fantasiar, sempre focado na
ajuda do jovem a expressar emoções e ajudando-o a não se culpabilizar.
Uma dica que pode ajudar é estar atento às perguntas da criança,
se pergunta, em princípio está preparada para receber a resposta, ainda que com
cuidado e gradualmente, indo analisando a reacção enquanto se fala e legitimar
sempre as emoções e a dificuldade em compreender a morte, podendo partilhar
esse sentimento com a criança/adolescente.
-
Devem ir ao funeral?
Não há uma regra, mais uma vez. No entanto, crianças muito
pequenas que não entendem o conceito de morte, não fará sentido participarem do
ritual, uma vez que o mesmo não contribuirá para o seu luto.
A partir de certas idades ou fases, em que já se compreende o
conceito de morte/perda e especialmente em que já se falou sobre a noção de
funeral, se a crianca mostrar vontade pode ser importante nao lhe vedar essa
vontade, no entanto, avaliando se a criança terá mais benefiícios em termos de
luto indo, ou ficando.
No caso dos adolescentes, é sempre importante avaliar cada caso
e características do adolescente, no entanto, na maioria dos casos e
tratando-se de alguém tão próximo como é um pai/mãe (se assim for), pode ser
importante.
Em alguns casos, permitir que escolha, explicando primeiro do
que se trata, que só terá de ir se quiser e por si mesmo, e a partir daí deixá-la
escolher, dando-lhe a conhecer a hipótese de onde ficará (deverá ser alguém da
confiança da criança), se não for e aceitando genuinamente qualquer das hipóteses,
evitando acima de tudo que sinta que por ser filha tem que ir ou que a mãe/pai
falecido iria ficar triste ou aborrecido. A ida ao velório e funeral deverá ser
sempre monitorizada para que a criança consiga entender certas reacções mais
efusivas a que possa assistir e dando-lhe sempre espaço para que se possam ir
embora.
- Os
pais devem chorar à frente da criança?
Sim, devem, como ao longo da vida devem mostrar as emoções,
sejam elas positivas ou negativas. É um trabalho desde que a criança nasce,
porque se assim for, nestas situações, a expressão será mais fácil, apesar de
nunca ser fácil e ajudará a criança a vivenciar o seu luto. Ajudar a crianca a
perceber como é normal sentir o que se sente e a expressar adequadamente o que
sente, sem mascarar a tristeza com zanga, que é tão frequente por exemplo no
caso dos jovens. No caso de um adulto que está muito desorganizado
emocionalmene com a morte, é importante evitar choros demasiado desesperados ou
sem parar que podem destabilizar completamente a criança e fazê-la sentir-se
responsável por ser ela a fazer o papel de adulto. Chorar com a criança pode
ajudar a fomentar a noção de união e de que podem sofrer juntos e
apoiarem-se.
- O
que responder ao “porquê morreram”?
Mais uma vez, depende das características e idade da criança. Em
idades muito precoces mas que já entendem a noção de morte, daí perguntarem,
atenção a explicações demasiado pormenorizadas que a criança pode não ter
maturidade emocional para recebê-las.
Nem sempre se consegue responder, mais uma vez recorrer a
explicações sinceras, ainda que ajustadas à criança é o mais adequado,
expressando também a dificuldade em entender a injustiça da morte.
- Deve-se
criar uma história de continuidade? Do céu? Ou das estrelas?
Conheço situações em que pais fizeram isso e resultou e outras
não. Acima de tudo, se a opção é criar histórias de continuidade é preciso ter
cuidado com a forma como as crianças as entendem e generalizam em certas
idades, para não desenvolverem medos ou preocupações excessivas.
A continuidade é no fundo transmitir que poderá sempre
lembrar-se da mãe/pai e das coisas boas que faziam juntos, é permitir que haja
recordações em casa do elemento que faleceu, é não ignorar que isso aconteceu,
é recordar. Talvez colocar uma fotografia ou ter um album disponível possa ser
mais adequado para ajudar a criança.
- O luto das crianças é mais difícil? Qual é a
faixa etária que reage pior? Porquê?
Não há uma faixa etária que reaja pior. Na verdade, a morte de
um pai/mãe próximo e presente é um acontecimento de vida brutal e avassalador,
em toda a infância e adolescência. Há certas crianças que poderão reagir pior
porque estão numa fase mais activa no desenvolvimento em termos de ansiedade de
separação, porque já estão por outros motivos anteriores à morte, instáveis
emocionalmente, porque não existe um bom suporte familiar/social, porque a
vivência do luto não foi feita de forma adequada.
Tal como em qualquer acontecimento de crise de vida, quanto mais
equilíbrio familiar e social já existir e maiores competências socioemocionais
existirem antes da morte, melhor a capacidade de vivência de luto.
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
Para LER COM os miúdos, a Psicóloga dos Miúdos sugere...
Porquê?
Porque diverte crianças, adolescentes e adultos e é um livro simples, fácil, mas cheio de potencialidades...
Que capacidades ajuda a desenvolver?
Curiosidade, capacidade de esperar, controlo da impulsividade, gestão emocional, capacidade de duvidar daquilo que pensamos, aprender a lidar com o que nos assusta e com o desconhecido.
Como poderei explorar o livro com o meu filho?
- Estimulando a curiosidade, envolvendo-o na vontade de querer saber quem é afinal o Cuquedo;
Porque diverte crianças, adolescentes e adultos e é um livro simples, fácil, mas cheio de potencialidades...
Que capacidades ajuda a desenvolver?
Curiosidade, capacidade de esperar, controlo da impulsividade, gestão emocional, capacidade de duvidar daquilo que pensamos, aprender a lidar com o que nos assusta e com o desconhecido.
Como poderei explorar o livro com o meu filho?
- Estimulando a curiosidade, envolvendo-o na vontade de querer saber quem é afinal o Cuquedo;
- Treinando a capacidade de esperar, ajudando-o a controlar as emoções, reflectindo o que ele estará a sentir e reforçando-o por conseguir esperar pelo final do livro;
- Contando os animais;
- Conhecendo os diferentes animais;
- Fazendo um desenho sobre o Cuquedo;
- Explorando porque acreditavam que o Cuquedo era assustador e como às vezes pensamos isso em relação a tanta coisa que afinal não é;
- No final, reflectindo como é importante vermos para nos certificarmos, ajudando-o a conhecer as primeiras noções de "boato";
- Proporcionando uma leitura emotiva, introduzindo expressões de curiosidade, espanto, expectativa;
- Questionar e ajudar o seu filho a expressar que medos tem e encontrarem juntos formas de lidar com eles;
- Rir. Rir muito!
Fico curiosa como foi a leitura deste livro com os miúdos aí em casa! Fico à espera das partilhas!
Afinal ler, é muito mais do que ler... Acima de tudo é crescer!
quinta-feira, 2 de outubro de 2014
O meu filho brinca com bonecas! Será normal?
Chegámos da escola, já eram seis da tarde
faltavam os banhos e o jantar, mas o Miguel tinha tanta vontade de brincar, que
resolvi adiantar o jantar e disse-lhe que podia ir brincar um bocadinho.
A irmã foi com o pai à Natação, o Miguel este
ano optou só pelo Taewkondo e nós concordámos. Por isso, à Terça-feira o Miguel
vem comigo para casa e a irmã vai nadar com o pai.
Fui para a cozinha e o Miguel foi para o
quarto. Distraí-me com o jantar e passado algum tempo, não sei precisar, mas passou
meia hora, quarenta minutos e não ouvia o Miguel a fazer os seus “bum, beeehhhh...”, só silêncio. Fui
espreitar. Devagarinho, percorri o corredor e vi que a porta do quarto dele,
que partilha com a irmã, estava encostada. Estranhei e fiquei até um bocadinho
preocupada: “Que estará ele a preparar desta vez?”, pensei. Lembrei-me daquela vez em que queria voar:
construiu umas asas e em cima do banco estava pronto para se atirar, ou da
outra vez que queria construir umas escadas de lego e subi-las. Encostei-me à
porta e abri-a ligeiramente, de modo a conseguir espreitar. Lá estava o Miguel,
a embalar a Francisca, a boneca que a irmã brinca como se de um bebé se
tratasse. E o Miguel embalava a Francisca, enrolada numa mantinha, fazia-lhe
festinhas na testa e cantava uma canção de embalar, muito baixinho. Vi que à
volta estava montada a cadeirinha das refeições da boneca Francisca e o
carrinho de passear mesmo ao lado. Foi nesse dia que percebi que o Miguel
brincava com bonecas!
A primeira sensação foi estranha, um misto de
espanto com preocupação. “Será normal? Porque será que brinca com bonecas? É
suposto os meninos brincarem com bonecas?”
Depois, numa mistura de espanto e até
vergonha, resolvi sair dali e não lhe dizer nada. O Miguel ficou a brincar e eu
sentei- -me na sala, pensativa. Queria
partilhar com alguém... Mas... E se não fosse suposto? E se mais nenhum menino
brincasse com...bonecas? E se contasse à educadora e não fosse suposto? Uma
catástrofe instalou-se de repente. Chegou a irmã e o pai do Miguel. A irmã
correu para o quarto e o pai veio ter comigo, deu-me um beijo e abraçou-me como
habitualmente.
- Que se passa? - perguntou de imediato. - O
que aconteceu? Contei-lhe, sem conseguir disfarçar a surpresa e espanto mas em
simultâneo numa tentativa de ver alguma normalidade na situação. O pai do
Miguel riu-se. Riu-se da situação e disse-me: - É normal. Claro que é. Eu
brinquei com as bonecas da minha irmã e das minhas primas, ainda por cima era o
único rapaz. Como o Miguel, também o pai partilhava quarto com a minha irmã e
no Verão, juntava-se a família toda, e era o único primo. Só meninas que
brincavam quase sempre com bonecas e às cozinhas.
- A sério? - perguntei, admirada. E o pai do
Miguel acenou afirmativamente, com o sorriso sempre tranquilo e ainda
acrescentou: E também havia carros e construções e especialmente a minha prima
Manuela, gostava muito de brincar com as construções e às corridas. E assim, lá
em casa, partilhavam-se brinquedos.
- E na escola? - perguntei eu curiosa.
- Na escola, lembro-me de perceber que não era
assim e que os meus colegas não iam perceber, mas às vezes quando iam lá a casa
e como os brinquedos estavam todos juntos, um ou outro brincava às cozinhas,
como se tendo os brinquedos todos no mesmo quarto, trouxesse maior
tranquilidade e menos vergonha a brincar com aquilo que se dizia ser de
“menina”.
Aquela conversa fez-me pensar. Afinal a minha
primeira reacção foi de algum embaraço e preocupação, mas realmente qual era o
problema? O Miguel era um miúdo engraçado, bem adaptado, com facilidade em
fazer amigos, com um mundo imaginário engraçado e uma curiosidade que lhe dava
a possibilidade de aprender muita coisa.
Resolvi ler um bocadinho sobre o tema, os
prós, os contras, se os há, porque se define brinquedos para meninas e para
meninos. E de facto, percebi que sem saber, pus à disposição dos meus filhos a
possibilidade de escolha, a liberdade de optarem e de preencherem o seu mundo
imaginário e de criatividade, com diferentes possibilidades.
Percebi que há de facto diferenças no tempo de desenvolvimento de algumas
áreas do cérebro entre géneros, que podem ter alguma influência no gosto por
brinquedos: as meninas tendem a desenvolver primeiro as áreas ligadas à
linguagem e aos afectos, pelo que apresentam maior facilidade com relações
sociais e têm um maior gosto por expressões faciais dos bonecos. Os meninos parecem ter desenvolvidas mais precocemente, as áreas do
lado direito do cérebro, ligadas às questões visuais, por isso, utilizam o
brinquedo como ferramenta, para montar, empilhar, organizar e usar conceitos
lógicos.
No entanto, esta influência biológica não é a
única responsável pela possível escolha de brinquedos. A história, a cultura
levou a esta grande diferença entre brinquedos para meninos e para meninas.
Actualmente, tanto eu como o pai do Miguel trabalhamos, dividimos tarefas,
tratamos dos nossos filhos. Antigamente, o papel de cuidadora era
essencialmente da mulher, o homem trabalhava e a mulher ficava em casa a tratar
dos filhos e das tarefas domésticas. Hoje sabemos que em grande parte das
famílias, com as mudanças na sociedade, a alteração do papel da mulher, algumas
mudanças económicas e sociais, não é assim. Como tal, experimentar o jogo
simbólico de cuidar de um “bebé”, prestar cuidados, alimentá-lo, ou por
exemplo, cozinhar, são tarefas de desenvolvimento importantes independentemente
do género. Acima de tudo isto, experimentar diferentes papéis, vestir
personagens diferentes, ter acesso a diferentes brincadeiras, possibilita o desenvolvimento
da imaginação, as competências sociais e a construção da identidade.
Foi assim, com a ajuda do pai do Miguel, com
algumas leituras e o questionar dos meus próprios pensamentos e sentimentos, que
percebi a importância de possibilitar aos meus dois filhos a escolha das
brincadeiras e dos brinquedos (vá, os que conseguimos dar e sempre com conta,
peso e medida), tentando condicioná-los o menos possível. Acima de tudo
consegui perceber tudo isto, com a ajuda do Miguel, o meu filho, que felizmente
na sua casa se sente bem e confortável para construir o seu mundo imaginário,
onde somos quem queremos ser, para um dia sermos o que é possível e nos faz
sentir bem.
Rita Castanheira Alves
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
Para LER COM os miúdos, a Psicóloga dos Miúdos sugere...
Porquê?
Porque é uma surpresa constante e intemporal! É interactivo e mágico, mas não é...
Que capacidades ajuda a desenvolver?
Imaginação, criatividade, raciocínio (numérico, lógico, orientação), saber esperar, curiosidade, lidar com a surpresa.
Como poderei explorar o livro com o meu filho?
- Perguntando antes de virar a página o que será que vai acontecer a seguir;
- Ajudando o seu filho a contar;
- Pedindo que por vezes repita a contagem com maior confiança e firmeza, de forma a desenvolver a segurança e a motivação;
- Fazendo expressões faciais de surpresa, contentamento, curiosidade, estimulando as competências emocionais.
Fico curiosa como foi a leitura deste livro com os miúdos aí em casa! Fico à espera das partilhas!
Afinal ler, é muito mais do que ler... Acima de tudo é crescer!
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
E se todos ralhassem consigo? A importância de elogiar o seu filho
E se
todos ralhassem consigo?
E se todos os dias alguém lhe dissesse para não se
vestir como se veste, para corrigir a forma como se movimenta e o modo como
fala?
Provavelmente não saberia como fazer de outra
forma, sentiria que não sabe fazer bem ou questionaria porque é que só lhe
dizem como não fazer?
E se mesmo quando tentasse corrigir, cada
aproximação sua ao que lhe é imposto não fosse reconhecida e lhe continuassem a
apontar apenas o que ainda não está exatamente como é suposto?
Provavelmente, em alguns casos e com tanto reparo,
deixaria de ligar ao que lhe dizem, deixaria que falassem, porque chegaria à
conclusão que, fizesse como fizesse, nunca estaria exatamente como lhe é pedido.
Agora pensemos nos nossos filhos. Em casa, na
escola, nos tempos livres e nas atividades que praticam fora da escola estão
todos os dias à prova, em crescimento, a fazer coisas novas, a experimentar
outras e é uma roda viva de tentativas e erros. E tantas vezes, sem darmos
conta, lhes dizemos: “ - Não é assim. Faz
assim. Tens de tentar de outra forma. Não se senta assim, come como eu,
conversa baixo, não te reboles no chão, não faças que vais entornar, eu faço
porque tu ainda não consegues.”
Se pararmos para escutar o número de vezes que lhes
dizemos como não devem ou como devem proceder de uma forma diferente da que procedem,
com certeza perderíamos a conta. Acabamos por ter o efeito contrário ao que
desejamos. A mensagem que lhes transmitimos, de tantas vezes repetida e por
tanta gente, deixa de fazer sentido ou ter a importância que gostaríamos.
A verdade é que as crianças estão todo o dia
expostas à correção do que fazem, como agem, do que experimentam, do que
ensaiam.
Assim, e para que aprendam o que queremos
ensinar-lhes, cada passo que dão na direção certa é uma vitória e deve ser
festejada como tal. Dá-lhes segurança, motivação e interesse em chegar mais
perto do objectivo.
A verdade é que também, nós adultos, quando temos uma
nova experiência, precisamos de mexer, de tentar, de falhar, de repetir e
voltar a tentar para melhorarmos o nosso desempenho. E todos nós queremos feedback, para saber em que direção
caminhamos, o que não conseguimos ainda fazer e como podemos proceder para nós
aproximarmos do objectivo. Mas acima de tudo precisamos, ansiamos e sentimos
como uma vitória sempre que alguém valoriza o que temos feito, o que tentámos e
principalmente somente o facto de estarmos a tentar, de arriscarmos.
Em casa, com os filhos (e não só) é frequente
esquecermo-nos que é essencial deixá-los arriscar, valorizar a iniciativa de quererem
ser eles a pôr sumo no copo, a pôr a mesa, a calçar os sapatos ou a tomar
banho. Sim, a casa de banho ficará mais molhada do que é costume, gastará mais
água, a toalha da mesa ficará ensopada em sumo, os sapatos podem ser calçados
ao contrário e tudo isto dá trabalho, bem sei. Mas sei também, que da primeira
vez entorna o sumo todo, da segunda vez já se vê sumo no copo e na terceira já
se vê metade do copo cheio. Em cada conquista estamos lá, claro, para exemplificar
o que ainda não está correto mas sobretudo e antes de tudo para fazer uma
festa: "- Uau! Conseguiste fazer ainda
melhor! Estás mesmo crescido!”
Vai surpreendê-lo, vai reforçar a autoconfiança do
seu filho, aumentar a sua autonomia e deixá-lo entusiasmado pelas suas
conquistas. Deixe-o arriscar, dê-lhe os parabéns por isso, faça uma festa,
proporcione a construção dos sucessos pelo seu filho.
Ponha uma toalha de plástico. Lance o desafio: Quem
conseguirá encher melhor o copo?
Acima de tudo elogie o seu filho.
Rita Castanheira Alves
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