sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Episódios do consultório da Psicóloga dos Miúdos: Às vezes, a psicóloga fica babada...

O episódio desta semana passou-se com um dos meus clientes miúdos, agora com 10 anos, já com as dificuldades que o trouxe à consulta resolvidas há algum tempo, mas com consultas esporádicas há uns meses a pedido dele. No final da última consulta combinámos com os pais que quando quisesse vir ter comigo, surgisse alguma dificuldade ou assunto que precisasse resolver com a minha ajuda, poderia dizer-lhes, porque neste momento estava tudo a correr bem com ele, e não havia necessidade de ficar um dia marcado.  Mas os pais ressalvaram bem que poderia mesmo dizer quando quisesse vir. 
O "meu" miúdo, com uns olhos tão bonitos, olhou para mim, sorriu e disse: - Quando eu quiser? Então quero vir todos os dias. E sorriu com uma voz carinhosa e como se fosse mais pequenino.
 Depois riu-se e voltou a ser o miúdo de 10 anos, cómico, riu-se e disse: "- Estou a brincar."
Às vezes, no consultório da Psicóloga dos Miúdos, no meio de problemas, angústias, desafios, há momentos destes, tranquilos e muito compensadores. :)

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O regresso à escola já regressou: as primeiras semanas de aulas

E depois de “prepararem a preparação” do regresso à escola, o “regresso regressou” mesmo. Há que ajudar o seu filho nesta nova fase.

É natural que possa notar o seu filho mais agitado, ansioso, irritado ou excitado nestas primeiras semanas de aulas. De repente, passou de 3 meses sem responsabilidades, sem objectivos académicos, sem rotinas a não ser ir à praia e brincar, para livros, mochila, fazer amigos, estar com atenção, deitar cedo, levantar muito cedo, regressar a um horário cheio e uma semana com tarefas para cumprir, na escola e em casa.

Com o tempo, ele chega lá. Vá… E os pais também.

Deixo mais umas dicas que, tenho reparado, ajudam os miúdos e as famílias que me procuram a “regressar ao regresso” à escola.

1.     Dar confiança e compreender: ir para uma nova escola, com novos colegas, ou voltar a ver os colegas com quem não se está há 3 meses, não saber que professores nos calharão, como correrá o ano, poderão ser motivos suficientes para que o seu filho se sinta tenso, ansioso e preocupado. É importante compreender, acompanhar e entrar em sintonia com ele, mostrando-lhe que é natural sentir-se assim e ter esse tipo de pensamentos. Não desvalorize, mas também não dramatize. Acompanhe, dê segurança e compreenda: “- Percebo o que sentes, é natural estares com muitas interrogações na tua cabeça. O tempo vai trazer-nos as respostas.”

2.     A lista das dúvidas e preocupações: após o primeiro dia de aulas (ou até antes), podem conversar sobre as preocupações e dúvidas que o seu filho pode ter, especialmente se for para uma nova escola, ano de mudança de ciclo e não vá com muitos colegas. Para facilitar esta tarefa, podem agarrar numa folha grande e escrever todas as preocupações e interrogações que imaginam que os alunos podem ter no regresso à escola. Esta tarefa vai facilitar bastante a capacidade do seu filho reflectir sobre aquilo que o preocupa e conseguir falar sobre isso. De seguida, poderá convidar o seu filho, dentro dessas preocupações, quais são as dele. Será uma lista que servirá de guia para que possa ir ajudando o seu filho a conversar sobre a escola e verificar se está tudo a correr bem.

3.     Instalar rotinas e hábitos: como sugeri no artigo sobre a “preparação da preparação”, é importante já ter instalado novos horários mesmo antes da escola começar, mas se não foi possível, agora é tempo. Nos primeiros dias, é natural que ouça à hora de ir para a cama: “- Não tenho sono, ainda é cedo”. No entanto, é bom reinstalar o hábito de ir para a cama à hora marcada, mesmo que possa demorar um pouco mais a adormecer e haja uma história ou conversa mais longa. Paralelamente, instalar hábitos e horários para a realização dos trabalhos-de-casa é essencial desde os primeiros dias, para que consigam um ano bem organizado, com tempo para brincar e descansar, tarefas essenciais para o sucesso académico.

4.     Ajudá-lo a arrumar as aprendizagens do dia e ensiná-lo a fazer revisões mentais: diariamente ajudá-lo a recordar-se do dia, conversando sobre o melhor do dia, o que não foi tão bom, o que mais gostou, o que aprendeu, o que se lembra melhor do que aprendeu. Para filhos que não aprofundam o tema, fica uma ajuda extra: http://observador.pt/2014/08/30/25-formas-de-perguntar-como-correu-escola/
Estas conversas vão ajudar o seu filho a organizar o raciocínio, saber o que assimilou melhor e o que não ficou compreendido, aprofundar as experiências do dia-a-dia e são excelentes oportunidades para o ir acompanhando nas várias vertentes do seu dia na escola, não só a aprendizagem dos conteúdos programáticos, mas também a vertente social e emocional.

5.     Fazer COM ele, não fazer por ele: desde início, especialmente com as crianças mais pequenas, acompanhá-las na execução dos trabalhos-de-ca-sa, no sentido de promover a sua autonomia e responsabilidade e não caíndo na tentação de fazer por elas, mesmo quando já estão muito cansados ou são trabalhos-de-casa intermináveis. É preferível não fazer todos e explicar ao/à professor(a) do que fazer por ele. Criará um problema que se instala e depois é de difícil resolução, além de que está a contribuir para que o seu filho construa a ideia de que não é capaz.

6.     Elogiar desde o primeiro momento: desde o primeiro dia de aulas, encontrar motivos para o elogiar. Certamente encontrará pelo menos um motivo para o fazer (porque não perdeu todo o material, porque consegue carregar com a mala, porque escreveu e sabe os trabalhos-de-casa… Seja curioso e atento, de certeza que vai encontrar motivos). Assim, desenvolve a auto-confiança e a motivação do seu filho para a escola e para o sucesso.

7.     Seja presente e conheça: conheça os pais dos colegas, conheça os professores, conheça quem está com o seu filho todo o dia. É importante que os pais criem uma rede de apoio entre si e que saiba com quem o seu filho está acompanhado todos os dias da semana. Esteja disponível para colaborar com o que lhe for possível, a escola agradece e o seu filho ainda mais.

E estas 7 medidas dão já para um bom plano para “regressar ao regresso” à escola. Resta-me desejar boa sorte, bom trabalho e um excelente ano!

Qualquer dificuldade, questão, problema, a Psicóloga dos Miúdos pode ajudar. Não hesite em escrever-lhe ou marcar consulta. 

Rita Castanheira Alves

Episódios do consultório da Psicóloga dos Miúdos: Os psicólogos vivem no consultório.

Há uns anos acompanhei uma miúda de 9 anos, muito curiosa, que fazia muitas perguntas sobre tudo o que via e sempre que tinha dúvidas.
Geralmente era a última cliente do dia e ela já tinha percebido isso, aliás perguntado. :) E um dia, já a sair da sala, perguntou-me se eu ía jantar, ao que lhe respondi afirmativamente. E de seguida perguntou, com uma expressão muito confusa: "- Mas afinal onde é que tu dormes? Tens uma cama noutra sala?" A minha cliente "miúda" tinha razão, de facto, há dias em que os psicólogos quase vivem no consultório.


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Regresso à escola: Preparar a preparação


E de repente passaram 3 meses de férias. Tão rápidos e tão cheios e pela frente avizinha-se novamente um período longo de rotinas, horários, trabalhos de casa, actividades e estudo. Ufa... Só de pensar cansa. Mais os pais do que os filhos. Se for pai ou mãe sabe o que quero dizer.

E para que o cansaço, ainda que inevitável, possa vir em doses mais reduzidas, há pequenas acções, medidas e gestos que podem ajudar a que as primeiras semanas do regresso à escola sejam... mais fáceis. 5 medidas em 8 dias antes do regresso à escola:

  1. Voltar ao horário escolar: 8 dias antes ajude o seu filho a voltar ao seu horário escolar, aproximando-se da hora de deitar e de acordar da época escolar. A rotina de sono é essencial para um bom aproveitamento na escola e precisa de um tempo para se voltar a instalar;
  2. Conversar tranquilamente sobre a escola: gradualmente voltar a conversar sobre a escola, as rotinas, a matéria, os professores e colegas. Deste modo, ajuda o seu filho, de forma tranquila, a pôr o cérebro em “modo escola”;
  3. Arrumar o quarto para modo escola: juntos guardarem uma tarde para arrumar o quarto, arrumar a secretária, mudar a disposição da mesma para uma maior organização, instalar ou limpar o placard em frente à secretária para escrever recados importantes, horário da escola e estudo, datas de testes e trabalhos;
  4. Tour mochila e material: antecipar a compra dos materiais necessários e possíveis de comprar e envolver o seu filho nessa tarefa. Promover a participação activa nas decisões sobre a mochila, sobre os cadernos, que material é necessário, para que situações;
  5. Organização e preparação do material: envolver o seu filho na preparação do material, nas tarefas que já consegue realizar. Por exemplo, pode incentivá-lo a cortar pequenas etiquetas para escrever o seu nome como forma de identificar os seus livros e cadernos. Além de desenvolver a responsabilidade e organização, treina a motricidade.
Mas para quê antecipar rotinas, se as mesmas depois duram tanto tempo? Para quê ter de antecipar algo e perder os últimos dias de férias? Na verdade, muitos pais questionam-se sobre isto, mas na verdade, as crianças (e não só) necessitam de um período gradual de adaptação às mudanças e a diferentes fases e rotinas, pelo que a antecipação e a mudança gradual vai ajudar o seu filho a entrar de forma tranquila na mesma. A organização prévia dos materiais e do quarto proporciona uma maior tranquilidade aos pais quando o tempo de escola voltar, não tendo já que se preocupar com esses aspectos. Não custa tentar. Provavelmente valerá a pena.

Rita Castanheira Alves 

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Episódios do consultório da Psicóloga dos Miúdos: É tão simples ser criança...

Na consulta, com um dos meus miúdos de 7 anos, ouve-se dois sons seguidos, constrangedores e ele olha para mim, com ar comprometido, mas continua a tarefa que estava a executar e quase sem o ouvir, pronuncia: "desculpa". 
Porque ambos demos conta e achei que era uma boa oportunidade para trabalharmos o embaraço e a vergonha, perguntei-lhe: "- Deste um pum?" - E sem o deixar responder, digo-lhe, na tentativa de o tranquilizar, que é normal sentir-se um pouco embaraçado mas que acontece e que pedir desculpa, como me pareceu que fez, é uma boa forma de lidar com a situação.  
Sem se mexer, olha para mim e diz-me: "- Não fui eu, foi um fantasma." Eu, fazendo-me despercebida, digo-lhe: "Não estou a perceber. Então mas se foi um fantasma porque pediste desculpa?"
E ele, sem parar o que estava a fazer, diz rapidamente: " - Oh, ele pediu-me para dizer por ele."

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Quando a informação é uma catástrofe na infância?


Guerras, catástrofes, crimes e incêndios... Diariamente, chegam-nos a casa, pela televisão ou pela internet, e mesmo sem querermos, os mais pequenos lá em casa, vêem mesmo sem quererem ver, ouvem sem fazerem por ouvir, pensam sem querer pensar. E fechar os olhos já não é uma estratégia. O que fazer? O que fazer quando a informação chega facilmente e sem filtro?

É difícil, hoje, fazer com que os mais novos lá em casa não acabem por ver e ouvir falar do que se passa no mundo, às vezes na cidade ao lado ou mesmo na rua ao lado, ou na praia onde sempre passam férias. São imagens que a comunicação social hoje transmite, são notícias do mundo. Não é possível tapar-lhe os olhos, não é possível fingir que não existe e simplesmente negar e dizer que isso nunca acontece. Então o que fazer?

A prevenção
Antes sequer do despertar das crianças para as perguntas difíceis de responder mas inevitáveis: - porque matam pessoas? Porque ardem a floresta? E se um terramoto acontecer aqui? - é essencial prevenir.
Todos os dias, especialmente nas idades mais precoces, limitar enquanto possível algum acesso às novas tecnologias, promovendo o contacto com outro tipo de actividades e estímulos, muito enriquecedores e essenciais para o seu desenvolvimento: brincar, jogar, socializar, passear, experimentar novas actividades são exemplo de formas úteis e importantes para que a criança tenha um equilíbrio no uso e acesso às tecnologias. Paralelamente, desenvolver boas práticas familiares para que a televisão ou o computador não seja o melhor amigo de cada elemento da família dentro de casa. Jantar sem televisão ligada, conversar ou jogar antes ou depois do jantar, partilhar emoções e o dia-a-dia de cada um poderão ser medidas preventivas muito poderosas, para que a informação perturbadora não entre sem questionamento e não se instale, sem alternativas. Mesmo antes do acesso à informação que chega pela comunicação social, desenvolver a reflexão e o espírito crítico, o saber pensar e ter uma posição sobre diferentes assuntos da realidade da criança, desenvolvendo com ela a capacidade de se posicionar perante o que a rodeia, distinguir o certo do errado, o bom e o mau, o justo e o injusto. E esta é só a prevenção. Parece grande, difícil e exigente, mas quando instalada, facilita o que vem a seguir.

E quando a informação já dói? E quando a informação que chega preocupa, angustia e é incompreensível?

A intervenção
Há um dia em que a criança, após um telejornal, após o escutar de uma conversa de adultos ou após o comentário de um colega, questiona: - Porque será que existem homens que matam crianças ou porque será que há homens que destroem a floresta ou tratam mal os filhos?
 É difícil responder e perceber, na verdade, para crianças e adultos. É altura de acompanhar, monitorizando o acesso à informação, responder às questões como se consegue, questioná-la também, expressar sentimentos, facilitar e permitir que também os expresse, ajudá-la a perceber, pegando em exemplos da realidade da criança, fazendo sempre os devidos ajustes e assinalando as diferenças necessárias. E acima de tudo, o adulto também mostrar o que sente perante o que vê, partilhar dos sentimentos da criança, mas de uma forma serena (não indiferente nem banalizando), evitando uma manifestação de ansiedade excessiva, que poderá ser extremamente desorganizadora emocionalmente e criar insegurança e falta de controlo. Explorar com a criança sempre que possível, que cuidados poderão ter, como poderão prevenir certas situações, como poderão contribuir para que na realidade delas exista menos injustiças ou desastres. No fundo, mais uma vez permitir que não entre numa esfera de pensamento catastrofizador, mas que, dentro do possível, há formas de controlo e de segurança.
De forma rotineira, ter especial atenção na diversificação da informação, dando-lhe a oportunidade de aceder a outro tipo de informação positiva ainda que realista, optando por também a rodear de informações culturais, ambientais, criativas e empreendedoras, abrindo o jornal na zona das notícias de descobertas, explorando uma página da internet sobre exposições ou livros infantis ou dando-lhe a conhecer bons exemplos de escolas inovadoras ou com projectos interessantes.

E por si só, a informação pode traumatizar, pode criar um problema psicológico na criança?

Educar é um trabalho de todos os dias, ou quase todos, ainda que nalguns dias corra melhor que noutros, é um trabalho constante. E crescer também. Por isso, em princípio, com um bom acompanhamento da criança no uso que faz das novas tecnologias e da forma como lhe chega a informação,  esta não será a responsável por possíveis traumas por si só. No entanto, é importante estar atento à fase em que a criança está: fases de desenvolvimento em que determinados medos surgem com maior intensidade, passagem recente por um acontecimento doloroso, crianças com uma predisposição ansiogénica elevada, fases de mudanças significativas (mudança de cidade, entrada para a escola, divórcio dos pais, aquisição de autonomia como dormir sozinha) poderão ser momentos em que a criança está mais vulnerável ao stress e ao impacto da informação negativa. É talvez altura de monitorizar de uma forma mais intensa o acesso à informação negativa, ou pelo menos, ajudá-la na integração e compreensão da mesma.

Há assim momentos e crianças em que toda a informação catastrófica pode mesmo ter um impacto no funcionamento da criança e provocar efeitos negativos, que necessitam ser resolvidos e aliviados, para o seu crescimento saudável. Há um conjunto de sinais de alerta que vale a pena conhecer, tendo sempre presente que é essencial reflectir sobre os restantes contextos e acontecimentos da criança, para uma melhor análise do problema e da sua resolução.

Alguns dos Sinais de Alerta:
-        Uma preocupação constante e excessiva sobre uma determinada notícia (um terramoto ou um incêndio, por exemplo) durante um período prolongado de tempo;
-        Generalização da situação veiculada pela informação a outros contextos e situações, como é o caso de um menino que após ouvir falar da malária, ao ver um mosquito dentro da sala de aula, apresentou uma reacção de extrema aflição e ansiedade;
-        Evitar certos locais ou actividades que são à partida seguras e sempre realizadas pela criança, pelo receio de que alguma catástrofe aconteça, como visto nas notícias;
-        Manifestação de comportamentos regressivos, ou seja, comportamentos típicos de idades mais precoces e já ultrapassados (“xixi” na cama – enurese; medos já ultrapassados; receio de ficar sozinho, pedir a chucha...);
-        Alterações alimentares e no sono;
-        Ansiedade excessiva relativamente a diferentes situações e/ou a uma específica.

Vale mesmo a pena, parar e pensar nisto e de alguma forma, aí em casa perceber como entra a informação, quando entra e onde se instala e de que forma.
Reflectir porque será que poderá estar a perturbar, o que será que afecta tanto.

Se necessário, há sempre a possibilidade de conversar com um especialista.
Se pretender pode contactar-me através do site www.psicologadosmiudos.com

*O meu agradecimento à SIC, especialmente à Jornalista Leonor Botte, pelo convite para participar no Programa Boa Tarde de dia 28/08, onde foi possível abordar este tema e à mãe Sara que foi uma excelente companheira nesta conversa. 

Rita Castanheira Alves