Há uns anos acompanhei uma miúda de 9 anos, muito curiosa, que fazia muitas perguntas sobre tudo o que via e sempre que tinha dúvidas.
Geralmente era a última cliente do dia e ela já tinha percebido isso, aliás perguntado. :) E um dia, já a sair da sala, perguntou-me se eu ía jantar, ao que lhe respondi afirmativamente. E de seguida perguntou, com uma expressão muito confusa: "- Mas afinal onde é que tu dormes? Tens uma cama noutra sala?" A minha cliente "miúda" tinha razão, de facto, há dias em que os psicólogos quase vivem no consultório.
Porque os miúdos não vêm com manual de instruções e porque se viessem também não tinha piada nenhuma... Vá, de vez em quando tinha alguma piada...
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
Regresso à escola: Preparar a preparação
E de repente passaram 3 meses de férias. Tão rápidos e tão cheios
e pela frente avizinha-se novamente um período longo de rotinas, horários,
trabalhos de casa, actividades e estudo. Ufa... Só de pensar cansa. Mais os
pais do que os filhos. Se for pai ou mãe sabe o que quero dizer.
E para que o cansaço, ainda que inevitável, possa vir em doses
mais reduzidas, há pequenas acções, medidas e gestos que podem ajudar a que as
primeiras semanas do regresso à escola sejam... mais fáceis. 5 medidas em 8
dias antes do regresso à escola:
- Voltar ao horário escolar: 8 dias antes ajude o seu filho
a voltar ao seu horário escolar, aproximando-se da hora de deitar e de
acordar da época escolar. A rotina de sono é essencial para um bom
aproveitamento na escola e precisa de um tempo para se voltar a instalar;
- Conversar tranquilamente sobre a escola: gradualmente voltar a
conversar sobre a escola, as rotinas, a matéria, os professores e colegas.
Deste modo, ajuda o seu filho, de forma tranquila, a pôr o cérebro em
“modo escola”;
- Arrumar o quarto para modo escola: juntos guardarem uma
tarde para arrumar o quarto, arrumar a secretária, mudar a disposição da
mesma para uma maior organização, instalar ou limpar o placard em frente à
secretária para escrever recados importantes, horário da escola e estudo,
datas de testes e trabalhos;
- Tour mochila e material: antecipar a compra dos
materiais necessários e possíveis de comprar e envolver o seu filho nessa
tarefa. Promover a participação activa nas decisões sobre a mochila, sobre
os cadernos, que material é necessário, para que situações;
- Organização e preparação do material: envolver o seu filho na preparação do material, nas tarefas que já consegue realizar. Por exemplo, pode incentivá-lo a cortar pequenas etiquetas para escrever o seu nome como forma de identificar os seus livros e cadernos. Além de desenvolver a responsabilidade e organização, treina a motricidade.
Mas para quê antecipar rotinas, se as
mesmas depois duram tanto tempo? Para quê ter de antecipar algo e perder os
últimos dias de férias? Na verdade, muitos pais questionam-se sobre isto, mas
na verdade, as crianças (e não só) necessitam de um período gradual de
adaptação às mudanças e a diferentes fases e rotinas, pelo que a antecipação e
a mudança gradual vai ajudar o seu filho a entrar de forma tranquila na mesma.
A organização prévia dos materiais e do quarto proporciona uma maior
tranquilidade aos pais quando o tempo de escola voltar, não tendo já que se
preocupar com esses aspectos. Não custa tentar. Provavelmente valerá a pena.
Rita Castanheira
Alves
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
Episódios do consultório da Psicóloga dos Miúdos: É tão simples ser criança...
Na consulta, com um dos meus miúdos de 7 anos, ouve-se dois sons seguidos, constrangedores e ele olha para mim, com ar comprometido, mas continua a tarefa que estava a executar e quase sem o ouvir, pronuncia: "desculpa".
Porque ambos demos conta e achei que era uma boa oportunidade para trabalharmos o embaraço e a vergonha, perguntei-lhe: "- Deste um pum?" - E sem o deixar responder, digo-lhe, na tentativa de o tranquilizar, que é normal sentir-se um pouco embaraçado mas que acontece e que pedir desculpa, como me pareceu que fez, é uma boa forma de lidar com a situação.
Sem se mexer, olha para mim e diz-me: "- Não fui eu, foi um fantasma." Eu, fazendo-me despercebida, digo-lhe: "Não estou a perceber. Então mas se foi um fantasma porque pediste desculpa?"
E ele, sem parar o que estava a fazer, diz rapidamente: " - Oh, ele pediu-me para dizer por ele."
Porque ambos demos conta e achei que era uma boa oportunidade para trabalharmos o embaraço e a vergonha, perguntei-lhe: "- Deste um pum?" - E sem o deixar responder, digo-lhe, na tentativa de o tranquilizar, que é normal sentir-se um pouco embaraçado mas que acontece e que pedir desculpa, como me pareceu que fez, é uma boa forma de lidar com a situação.
Sem se mexer, olha para mim e diz-me: "- Não fui eu, foi um fantasma." Eu, fazendo-me despercebida, digo-lhe: "Não estou a perceber. Então mas se foi um fantasma porque pediste desculpa?"
E ele, sem parar o que estava a fazer, diz rapidamente: " - Oh, ele pediu-me para dizer por ele."
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
Quando a informação é uma catástrofe na infância?
Guerras, catástrofes, crimes e incêndios... Diariamente,
chegam-nos a casa, pela televisão ou pela internet, e mesmo sem querermos, os
mais pequenos lá em casa, vêem mesmo sem quererem ver, ouvem sem fazerem por
ouvir, pensam sem querer pensar. E fechar os olhos já não é uma estratégia. O
que fazer? O que fazer quando a informação chega facilmente e sem filtro?
É difícil, hoje, fazer com que os mais novos lá em casa não acabem
por ver e ouvir falar do que se passa no mundo, às vezes na cidade ao lado ou
mesmo na rua ao lado, ou na praia onde sempre passam férias. São imagens que a
comunicação social hoje transmite, são notícias do mundo. Não é possível
tapar-lhe os olhos, não é possível fingir que não existe e simplesmente negar e
dizer que isso nunca acontece. Então o que fazer?
A prevenção
Antes sequer do despertar das crianças para as perguntas difíceis
de responder mas inevitáveis: - porque matam pessoas? Porque ardem a floresta?
E se um terramoto acontecer aqui? - é essencial prevenir.
Todos os dias, especialmente nas idades mais precoces, limitar enquanto
possível algum acesso às novas tecnologias, promovendo o contacto com outro
tipo de actividades e estímulos, muito enriquecedores e essenciais para o seu
desenvolvimento: brincar, jogar, socializar, passear, experimentar novas
actividades são exemplo de formas úteis e importantes para que a criança tenha
um equilíbrio no uso e acesso às tecnologias. Paralelamente, desenvolver boas
práticas familiares para que a televisão ou o computador não seja o melhor
amigo de cada elemento da família dentro de casa. Jantar sem televisão ligada,
conversar ou jogar antes ou depois do jantar, partilhar emoções e o dia-a-dia
de cada um poderão ser medidas preventivas muito poderosas, para que a
informação perturbadora não entre sem questionamento e não se instale, sem
alternativas. Mesmo antes do acesso à informação que chega pela comunicação
social, desenvolver a reflexão e o espírito crítico, o saber pensar e ter uma
posição sobre diferentes assuntos da realidade da criança, desenvolvendo com
ela a capacidade de se posicionar perante o que a rodeia, distinguir o certo do
errado, o bom e o mau, o justo e o injusto. E esta é só a prevenção. Parece
grande, difícil e exigente, mas quando instalada, facilita o que vem a seguir.
E quando a informação já
dói? E quando a informação que chega preocupa, angustia e é incompreensível?
A intervenção
Há um dia em que a criança, após um telejornal, após o escutar de
uma conversa de adultos ou após o comentário de um colega, questiona: - Porque
será que existem homens que matam crianças ou porque será que há homens que
destroem a floresta ou tratam mal os filhos?
É difícil responder e
perceber, na verdade, para crianças e adultos. É altura de acompanhar,
monitorizando o acesso à informação, responder às questões como se consegue, questioná-la
também, expressar sentimentos, facilitar e permitir que também os expresse,
ajudá-la a perceber, pegando em exemplos da realidade da criança, fazendo
sempre os devidos ajustes e assinalando as diferenças necessárias. E acima de
tudo, o adulto também mostrar o que sente perante o que vê, partilhar dos
sentimentos da criança, mas de uma forma serena (não indiferente nem
banalizando), evitando uma manifestação de ansiedade excessiva, que poderá ser
extremamente desorganizadora emocionalmente e criar insegurança e falta de
controlo. Explorar com a criança sempre que possível, que cuidados poderão ter,
como poderão prevenir certas situações, como poderão contribuir para que na
realidade delas exista menos injustiças ou desastres. No fundo, mais uma vez
permitir que não entre numa esfera de pensamento catastrofizador, mas que, dentro
do possível, há formas de controlo e de segurança.
De forma rotineira, ter especial atenção na diversificação da
informação, dando-lhe a oportunidade de aceder a outro tipo de informação
positiva ainda que realista, optando por também a rodear de informações
culturais, ambientais, criativas e empreendedoras, abrindo o jornal na zona das
notícias de descobertas, explorando uma página da internet sobre exposições ou
livros infantis ou dando-lhe a conhecer bons exemplos de escolas inovadoras ou
com projectos interessantes.
E por si só, a informação
pode traumatizar, pode criar um problema psicológico na criança?
Educar é um trabalho de todos os dias, ou quase todos, ainda que nalguns
dias corra melhor que noutros, é um trabalho constante. E crescer também. Por
isso, em princípio, com um bom acompanhamento da criança no uso que faz das
novas tecnologias e da forma como lhe chega a informação, esta não será a responsável por possíveis
traumas por si só. No entanto, é importante estar atento à fase em que a
criança está: fases de desenvolvimento em que determinados medos surgem com
maior intensidade, passagem recente por um acontecimento doloroso, crianças com
uma predisposição ansiogénica elevada, fases de mudanças significativas
(mudança de cidade, entrada para a escola, divórcio dos pais, aquisição de
autonomia como dormir sozinha) poderão ser momentos em que a criança está mais
vulnerável ao stress e ao impacto da informação negativa. É talvez altura de
monitorizar de uma forma mais intensa o acesso à informação negativa, ou pelo
menos, ajudá-la na integração e compreensão da mesma.
Há assim momentos e crianças em que toda a informação catastrófica
pode mesmo ter um impacto no funcionamento da criança e provocar efeitos
negativos, que necessitam ser resolvidos e aliviados, para o seu crescimento
saudável. Há um conjunto de sinais de alerta que vale a pena conhecer, tendo sempre
presente que é essencial reflectir sobre os restantes contextos e
acontecimentos da criança, para uma melhor análise do problema e da sua
resolução.
Alguns dos Sinais de
Alerta:
-
Uma preocupação constante e excessiva sobre uma
determinada notícia (um terramoto ou um incêndio, por exemplo) durante um
período prolongado de tempo;
-
Generalização da situação veiculada pela
informação a outros contextos e situações, como é o caso de um menino que após
ouvir falar da malária, ao ver um mosquito dentro da sala de aula, apresentou
uma reacção de extrema aflição e ansiedade;
-
Evitar certos locais ou actividades que são à
partida seguras e sempre realizadas pela criança, pelo receio de que alguma
catástrofe aconteça, como visto nas notícias;
-
Manifestação de comportamentos regressivos, ou
seja, comportamentos típicos de idades mais precoces e já ultrapassados (“xixi”
na cama – enurese; medos já ultrapassados; receio de ficar sozinho, pedir a
chucha...);
-
Alterações alimentares e no sono;
-
Ansiedade excessiva relativamente a diferentes
situações e/ou a uma específica.
Vale mesmo a pena, parar e pensar nisto e de alguma forma, aí em
casa perceber como entra a informação, quando entra e onde se instala e de que
forma.
Reflectir porque será que poderá estar a perturbar, o que será que
afecta tanto.
Se necessário, há sempre a possibilidade de conversar com um
especialista.
Se pretender pode contactar-me através do site www.psicologadosmiudos.com.
*O meu agradecimento à SIC, especialmente à Jornalista Leonor Botte, pelo convite para participar no Programa Boa Tarde de dia 28/08, onde foi possível abordar este tema e à mãe Sara que foi uma excelente companheira nesta conversa.
Rita Castanheira Alves
terça-feira, 6 de maio de 2014
Será que não gosto do meu filho?!
A Eva tem dois filhos, uma
rapariga com 10 anos e um menino de 5.
Senta-se e com a lágrima no canto do
olho, embaraçada e sem saber como abordar o assunto. Baixa a cara, esfrega as
mãos e fala baixinho: “- Tenho um pensamento
que não me larga sobre a forma como gosto dos meus filhos. Tenho vergonha mas
acho que gosto mais do meu filho do que da minha filha. É errado, não é?”
As lágrimas escorrem e contam a culpa que a Eva sente por ter crescido com a
expectativa que o amor pelos filhos é incondicional.
Mas não é Eva. “ - Com quantas mães falou sobre isso?” De olhos muito abertos, com vergonha, diz
prontamente: "- Nenhum, nenhuma. O
que havia de ser...” O que a Eva não sabe é que, como ela, há outras mães
que pensam o mesmo e vivem assombradas por esse pensamento que não se controla,
e que se todas pudessem saber que as
outras também sentem ou já sentiram, a angústia de não ser algo “normal”
aliviava e era mais fácil viver com os filhos sem este pensamento que faz medir
todas as acções.
“- Faço a um e lembro-me logo que tenho que fazer também à mais velha para
que ela não perceba que gosto menos dela. Se dei um beijo ao pequeno, vou logo
dar um beijo. Tenho medo que isto a prejudique. Será que foi porque depois da
gravidez não estive muito feliz?”
Será? Será? Será? A Eva sente
exausta e mal consigo mesma, acha que é a única que sente desta forma e a culpa
cresce e começa a comandá-la nos actos com os filhos, que antes eram tão
espontâneos.
É preciso parar. Quase que a
primeira vontade é abraçar estas mães que aparecem aterrorizadas com as
partidas que os pensamentos, as expectativas, a cultura e a educação nos prega,
a todos nós. Primeiro precisa de um sorriso e de normalizar. Afinal, os filhos
são pessoas, com características do pai, da mãe, mas também de outros
significativos e com características deles mesmos.
É tão importante sossegar a Eva e as
mães como a Eva, que se assustam com os próprios pensamentos, que querem tão
bem aos filhos e se preocupam que cresçam felizes e saudáveis que receiam não
lhes dar todo o amor que precisam. Isso é gostar, isso é amar.
A Eva relata e exemplifica, agora
mais solta, o que não gosta na filha: alguns comportamentos, reacções egoístas,
a falta de sentido de gratidão em algumas das suas atitudes. A Eva identifica
objectivamente o que não gosta, alguns comportamentos e atitudes.
Devagarinho substituímos o “Não
gosto da minha filha.” por "Não gosto de alguns comportamentos e atitudes
da milha filha” e parece tudo menos pesado. Permanece o medo de ser a única, de
ter sentimentos que não se devem ter, o peso de ser um amor que se deve ter
como incondicional. Mas olhar para os
filhos como pessoas faz-nos bem, a todas as mães Eva, a todos nós e aos filhos.
Podemos ensinar-lhes o que é correcto do que não é, o que é a gratidão, o ser
genuíno e o ser honesto, o que é escolher como ser, melhorar e mudar.
Afinal tal como as mães, os filhos
também são pessoas. Que, como as outras pessoas que gostamos, têm
comportamentos que gostamos mais e outros que gostamos menos. A vantagem é que
o amor que temos por ele nos faz gastar todo o tempo do mundo a orientá-los, a
ajudá-los a escolher como são e como querem ser.
Rita Castanheira Alves
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