quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Episódios do consultório da Psicóloga dos Miúdos: É tão simples ser criança...

Na consulta, com um dos meus miúdos de 7 anos, ouve-se dois sons seguidos, constrangedores e ele olha para mim, com ar comprometido, mas continua a tarefa que estava a executar e quase sem o ouvir, pronuncia: "desculpa". 
Porque ambos demos conta e achei que era uma boa oportunidade para trabalharmos o embaraço e a vergonha, perguntei-lhe: "- Deste um pum?" - E sem o deixar responder, digo-lhe, na tentativa de o tranquilizar, que é normal sentir-se um pouco embaraçado mas que acontece e que pedir desculpa, como me pareceu que fez, é uma boa forma de lidar com a situação.  
Sem se mexer, olha para mim e diz-me: "- Não fui eu, foi um fantasma." Eu, fazendo-me despercebida, digo-lhe: "Não estou a perceber. Então mas se foi um fantasma porque pediste desculpa?"
E ele, sem parar o que estava a fazer, diz rapidamente: " - Oh, ele pediu-me para dizer por ele."

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Quando a informação é uma catástrofe na infância?


Guerras, catástrofes, crimes e incêndios... Diariamente, chegam-nos a casa, pela televisão ou pela internet, e mesmo sem querermos, os mais pequenos lá em casa, vêem mesmo sem quererem ver, ouvem sem fazerem por ouvir, pensam sem querer pensar. E fechar os olhos já não é uma estratégia. O que fazer? O que fazer quando a informação chega facilmente e sem filtro?

É difícil, hoje, fazer com que os mais novos lá em casa não acabem por ver e ouvir falar do que se passa no mundo, às vezes na cidade ao lado ou mesmo na rua ao lado, ou na praia onde sempre passam férias. São imagens que a comunicação social hoje transmite, são notícias do mundo. Não é possível tapar-lhe os olhos, não é possível fingir que não existe e simplesmente negar e dizer que isso nunca acontece. Então o que fazer?

A prevenção
Antes sequer do despertar das crianças para as perguntas difíceis de responder mas inevitáveis: - porque matam pessoas? Porque ardem a floresta? E se um terramoto acontecer aqui? - é essencial prevenir.
Todos os dias, especialmente nas idades mais precoces, limitar enquanto possível algum acesso às novas tecnologias, promovendo o contacto com outro tipo de actividades e estímulos, muito enriquecedores e essenciais para o seu desenvolvimento: brincar, jogar, socializar, passear, experimentar novas actividades são exemplo de formas úteis e importantes para que a criança tenha um equilíbrio no uso e acesso às tecnologias. Paralelamente, desenvolver boas práticas familiares para que a televisão ou o computador não seja o melhor amigo de cada elemento da família dentro de casa. Jantar sem televisão ligada, conversar ou jogar antes ou depois do jantar, partilhar emoções e o dia-a-dia de cada um poderão ser medidas preventivas muito poderosas, para que a informação perturbadora não entre sem questionamento e não se instale, sem alternativas. Mesmo antes do acesso à informação que chega pela comunicação social, desenvolver a reflexão e o espírito crítico, o saber pensar e ter uma posição sobre diferentes assuntos da realidade da criança, desenvolvendo com ela a capacidade de se posicionar perante o que a rodeia, distinguir o certo do errado, o bom e o mau, o justo e o injusto. E esta é só a prevenção. Parece grande, difícil e exigente, mas quando instalada, facilita o que vem a seguir.

E quando a informação já dói? E quando a informação que chega preocupa, angustia e é incompreensível?

A intervenção
Há um dia em que a criança, após um telejornal, após o escutar de uma conversa de adultos ou após o comentário de um colega, questiona: - Porque será que existem homens que matam crianças ou porque será que há homens que destroem a floresta ou tratam mal os filhos?
 É difícil responder e perceber, na verdade, para crianças e adultos. É altura de acompanhar, monitorizando o acesso à informação, responder às questões como se consegue, questioná-la também, expressar sentimentos, facilitar e permitir que também os expresse, ajudá-la a perceber, pegando em exemplos da realidade da criança, fazendo sempre os devidos ajustes e assinalando as diferenças necessárias. E acima de tudo, o adulto também mostrar o que sente perante o que vê, partilhar dos sentimentos da criança, mas de uma forma serena (não indiferente nem banalizando), evitando uma manifestação de ansiedade excessiva, que poderá ser extremamente desorganizadora emocionalmente e criar insegurança e falta de controlo. Explorar com a criança sempre que possível, que cuidados poderão ter, como poderão prevenir certas situações, como poderão contribuir para que na realidade delas exista menos injustiças ou desastres. No fundo, mais uma vez permitir que não entre numa esfera de pensamento catastrofizador, mas que, dentro do possível, há formas de controlo e de segurança.
De forma rotineira, ter especial atenção na diversificação da informação, dando-lhe a oportunidade de aceder a outro tipo de informação positiva ainda que realista, optando por também a rodear de informações culturais, ambientais, criativas e empreendedoras, abrindo o jornal na zona das notícias de descobertas, explorando uma página da internet sobre exposições ou livros infantis ou dando-lhe a conhecer bons exemplos de escolas inovadoras ou com projectos interessantes.

E por si só, a informação pode traumatizar, pode criar um problema psicológico na criança?

Educar é um trabalho de todos os dias, ou quase todos, ainda que nalguns dias corra melhor que noutros, é um trabalho constante. E crescer também. Por isso, em princípio, com um bom acompanhamento da criança no uso que faz das novas tecnologias e da forma como lhe chega a informação,  esta não será a responsável por possíveis traumas por si só. No entanto, é importante estar atento à fase em que a criança está: fases de desenvolvimento em que determinados medos surgem com maior intensidade, passagem recente por um acontecimento doloroso, crianças com uma predisposição ansiogénica elevada, fases de mudanças significativas (mudança de cidade, entrada para a escola, divórcio dos pais, aquisição de autonomia como dormir sozinha) poderão ser momentos em que a criança está mais vulnerável ao stress e ao impacto da informação negativa. É talvez altura de monitorizar de uma forma mais intensa o acesso à informação negativa, ou pelo menos, ajudá-la na integração e compreensão da mesma.

Há assim momentos e crianças em que toda a informação catastrófica pode mesmo ter um impacto no funcionamento da criança e provocar efeitos negativos, que necessitam ser resolvidos e aliviados, para o seu crescimento saudável. Há um conjunto de sinais de alerta que vale a pena conhecer, tendo sempre presente que é essencial reflectir sobre os restantes contextos e acontecimentos da criança, para uma melhor análise do problema e da sua resolução.

Alguns dos Sinais de Alerta:
-        Uma preocupação constante e excessiva sobre uma determinada notícia (um terramoto ou um incêndio, por exemplo) durante um período prolongado de tempo;
-        Generalização da situação veiculada pela informação a outros contextos e situações, como é o caso de um menino que após ouvir falar da malária, ao ver um mosquito dentro da sala de aula, apresentou uma reacção de extrema aflição e ansiedade;
-        Evitar certos locais ou actividades que são à partida seguras e sempre realizadas pela criança, pelo receio de que alguma catástrofe aconteça, como visto nas notícias;
-        Manifestação de comportamentos regressivos, ou seja, comportamentos típicos de idades mais precoces e já ultrapassados (“xixi” na cama – enurese; medos já ultrapassados; receio de ficar sozinho, pedir a chucha...);
-        Alterações alimentares e no sono;
-        Ansiedade excessiva relativamente a diferentes situações e/ou a uma específica.

Vale mesmo a pena, parar e pensar nisto e de alguma forma, aí em casa perceber como entra a informação, quando entra e onde se instala e de que forma.
Reflectir porque será que poderá estar a perturbar, o que será que afecta tanto.

Se necessário, há sempre a possibilidade de conversar com um especialista.
Se pretender pode contactar-me através do site www.psicologadosmiudos.com

*O meu agradecimento à SIC, especialmente à Jornalista Leonor Botte, pelo convite para participar no Programa Boa Tarde de dia 28/08, onde foi possível abordar este tema e à mãe Sara que foi uma excelente companheira nesta conversa. 

Rita Castanheira Alves

terça-feira, 6 de maio de 2014

Será que não gosto do meu filho?!


A Eva tem dois filhos, uma rapariga  com 10 anos e um menino de 5.
Senta-se e com a lágrima no canto do olho, embaraçada e sem saber como abordar o assunto. Baixa a cara, esfrega as mãos e fala baixinho: “- Tenho um pensamento que não me larga sobre a forma como gosto dos meus filhos. Tenho vergonha mas acho que gosto mais do meu filho do que da minha filha. É errado, não é?” As lágrimas escorrem e contam a culpa que a Eva sente por ter crescido com a expectativa que o amor pelos filhos é incondicional.
Mas não é Eva. “ - Com quantas mães falou sobre isso?”  De olhos muito abertos, com vergonha, diz prontamente: "- Nenhum, nenhuma. O que havia de ser...” O que a Eva não sabe é que, como ela, há outras mães que pensam o mesmo e vivem assombradas por esse pensamento que não se controla, e que se todas pudessem saber  que as outras também sentem ou já sentiram, a angústia de não ser algo “normal” aliviava e era mais fácil viver com os filhos sem este pensamento que faz medir todas as acções.
“- Faço a um e lembro-me logo que tenho que fazer também à mais velha para que ela não perceba que gosto menos dela. Se dei um beijo ao pequeno, vou logo dar um beijo. Tenho medo que isto a prejudique. Será que foi porque depois da gravidez não estive muito feliz?
Será? Será? Será? A Eva sente exausta e mal consigo mesma, acha que é a única que sente desta forma e a culpa cresce e começa a comandá-la nos actos com os filhos, que antes eram tão espontâneos.
É preciso parar. Quase que a primeira vontade é abraçar estas mães que aparecem aterrorizadas com as partidas que os pensamentos, as expectativas, a cultura e a educação nos prega, a todos nós. Primeiro precisa de um sorriso e de normalizar. Afinal, os filhos são pessoas, com características do pai, da mãe, mas também de outros significativos e com características deles mesmos.
É tão importante sossegar a Eva e as mães como a Eva, que se assustam com os próprios pensamentos, que querem tão bem aos filhos e se preocupam que cresçam felizes e saudáveis que receiam não lhes dar todo o amor que precisam. Isso é gostar, isso é amar.
A Eva relata e exemplifica, agora mais solta, o que não gosta na filha: alguns comportamentos, reacções egoístas, a falta de sentido de gratidão em algumas das suas atitudes. A Eva identifica objectivamente o que não gosta, alguns comportamentos e atitudes.
Devagarinho substituímos o “Não gosto da minha filha.” por "Não gosto de alguns comportamentos e atitudes da milha filha” e parece tudo menos pesado. Permanece o medo de ser a única, de ter sentimentos que não se devem ter, o peso de ser um amor que se deve ter como incondicional. Mas  olhar para os filhos como pessoas faz-nos bem, a todas as mães Eva, a todos nós e aos filhos. Podemos ensinar-lhes o que é correcto do que não é, o que é a gratidão, o ser genuíno e o ser honesto, o que é escolher como ser, melhorar e mudar.
Afinal tal como as mães, os filhos também são pessoas. Que, como as outras pessoas que gostamos, têm comportamentos que gostamos mais e outros que gostamos menos. A vantagem é que o amor que temos por ele nos faz gastar todo o tempo do mundo a orientá-los, a ajudá-los a escolher como são e como querem ser.
Rita Castanheira Alves